Disciplina: Português
Banca: Consulplan
Orgão: Pref. Santa Maria Jetibá-ES
Vergonha e vexame
Tem muita gente aí que gostaria de ter um controle remoto para desligar o Brasil com um simples clique. Chega, arre! Vocês viram outro dia a pesquisa Datafolha com a meninada do vestibular: 44% deles pensam em ir embora. Dos que têm mais de 21 anos, 63%, se pudessem, davam no pé. E ainda eram capazes de fazer aquele gesto 100% nacionalista que o Collor, um privatista, publicou para todo mundo ver. É isso mesmo, a banana.
Agora vem o Lula e diz em Belo Horizonte que ser brasileiro virou uma vergonha. Como bom brasileiro, tal qual o maior de nossos patrícios, que é Deus, o Lula recomendou mais fé. Disse ele: “Comprar mais velas, rezar mais e acreditar no sobrenatural”. Duas indústrias progridem hoje entre nós: a de grades e a de velas, ou seja, queremos segurança aqui e lá em cima, no Céu.
Outro dia me deu uma bruta saudade do Henriquinho. O Henriquinho é o nome familiar do Henfil. A família dele ganhou agora na Justiça o direito a uma indenização. Ainda bem. O Henfil morreu de Aids contraída numa transfusão de sangue. Também dá vergonha, não dá? Um cara com aquela chispa genial morrer na flor dos anos. Brasileiro indignado, o Henfil tinha um senso de humor fantástico. Quando ele veio para o Rio, me confessou muito encabulado que não sabia crasear e até me pediu umas aulas. Como se eu pudesse ensinar.
Fique tranquilo, disse-lhe eu. Ninguém sabe. Os que sabiam morreram ou preferem fingir que não sabem. Pega mal e fica até feio. Nessa época, o Henfil, 20 anos, supunha que “vexame” era francês. Tinha uma dúvida sobre a pronúncia: seria “vechame” ou “vecsame’’? Resultado: como bom mineiro, riscou a palavra do seu vocabulário (o oral pelo menos). Um dia ele resolveu pronunciar “vexame” e caprichou como se fosse francês. Claro, foi um vexame. E todo mundo riu.
Muito pior do que essa história pitoresca do Henfil é essa mania de “a nível de”. Eu não aguento mais: a nível de é a mãe, xingo logo. Em 1900, o conde Afonso Celso publicou “Por que me ufano do meu país” e daí veio o ufanismo. Será que cem anos depois vamos escrever “Por que me envergonho do meu país”? Se eu “sabisse” disto, como diz a minha amiga Teresa, seis anos de idade, não tinha nascido brasileiro. Aí a Teresa para e, na dúvida, me pergunta: é “sabisse” ou “sabesse”? Tanto faz, respondo. Com o vexame que grassa no Brasil, qualquer coisa tá certa.
(RESENDE, Otto Lara. Bom dia para nascer: crônicas publicadas na Folha de S. Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.)
A crônica de Otto Lara Resende, embora discorra sobre uma gama de temáticas variadas relacionadas ao contexto brasileiro da época em que foi escrita, apresenta uma constante ao abordar cada um dos tópicos dispostos ao longo do texto. Trata-se do(a)