O escuro queima
Vou sair de noite com o meu filho pequeno e ele pede que eu passe bronzeador. Explico que não há sol. Ele insiste, e entendo: o escuro queima.
Atravessar uma noite em claro, com medo das dívidas, queima. O salário nunca será suficiente para cima ou para baixo — é apenas um adiantamento. Quem mais tem mais gasta, quem nada tem mais tenta gastar.
Ambos enrolam saldos bancários como terços de papel. Jogo na Mega-Sena e invento destinos para a bolada. É uma diversão garantida imaginar fiado sobre o que faria com milhões em minha conta. Poderia viver só com os juros. Sou previsível até fora dos hábitos.
Não é o dinheiro que manda na vida. É a falta de dinheiro. Tanto que ter crédito é mais importante do que ter grana. Muitos colegas usam o negativo como saldo positivo. Mudam apenas a fonte do empréstimo para pagar um antigo empréstimo. E não conseguem relaxar, descansar, oprimidos por uma generosidade ao contrário: de dar o que nem sequer desfrutam. Gastam o que não sentiram sequer o cheiro. Gastam o cheiro de sentir.
O homem se consome em segredo, como uma úlcera, como uma gastrite, ácido que estoura pelo acúmulo. Entendo quem bebe para esquecer, quem finge que é uma criança para ser levado pela mão. O desespero é uma ciência.
Não importa o grau de instrução, na dívida se é um iletrado. Um inconsequente. Um irresponsável. O devedor pede desculpa já no café da manhã. Nada mais implacável do que perder a casa por falta de pagamento e baixar o olhar, impotente, aos filhos, enquanto o oficial de justiça e os policiais empurram tudo para fora. No despejo, a única honra possível é recolher suas coisas antes dos estranhos. Nada mais implacável do que recuar produtos na esteira no mercado, escolher entre o essencial e o essencial, para chegar a um valor suportável.
Dívida segrega, é pior do que isolamento. É dor do cansaço muscular, sem diagnóstico. E aquilo que é quitado não dura mais do que uma semana. O mês deveria ser semanal para diminuir o desastre. O escuro queima. Apavora. É como se o ladrão estivesse, em movimento inverso, dentro de casa procurando sair para a rua.
CARPINEJAR, Fabrício. O escuro queima. In: Canalha!: retrato poético do homem contemporâneo: crônicas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008. p. 116-117. Adaptado.
No trecho “Ele insiste, e entendo: o escuro queima.”, o uso da vírgula se justifica pelo(a)