A ilusão da igualdade
Todos os países do Ocidente, tal como o Brasil, gostam de alardear, em suas constituições, o velho e desmoralizado princípio de que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. Mas, em todo o mundo ocidental, como vemos agora na França, a realidade efetiva é bem diversa, o que transforma esse enunciado constitucional em meras palavras bonitas, sem qualquer efeito prático.
Se houvesse, em cada país, uma constituição oficial e outra não-oficial, que refletisse a realidade dos fatos, esta certamente diria: “todos são iguais perante a lei desde que tenham a mesma condição social e econômica, a mesma cor e o mesmo credo político; caso contrário, a lei e o Poder Judiciário darão tratamento desigual a cada indivíduo.” Na realidade, o que falta é uma ação governamental concreta e efetiva, e, nesse vácuo, as constituições não-oficiais seriam menos hipócritas e poderiam até criar um espírito nacional mais comprometido com a verdade e a ética vigentes. Com o passar do tempo, seus efeitos seriam cada vez mais profundos. A publicidade, por exemplo, deixaria de lado as velhas mentiras utilizadas para captar clientes incautos. Só para ilustrar: os preços de produtos e serviços veiculados na televisão e na imprensa deixariam de ser de R$ 499,90 e seriam, finalmente, de R$ 500,00 claros e redondos. Outro exemplo: os canais de “TV por Assina e Atura”, ou “TV Acabo com Você”, diriam, honestamente, em suas propagandas: “assine este canal e assista, com várias interrupções, a seus programas preferidos, pois os chatíssimos comerciais não existem só na TV aberta, como você imaginava. Filmes novos? Primeiro, temos de pagar aquele que já mostramos 20 vezes.”
Seria mais humano um mundo verdadeiro onde os governos e as pessoas assumissem, abertamente, o que fazem dia a dia, deixando de lado aquelas palavras bonitas que estão nas constituições e nas leis apenas para “inglês ver”.
Alfredo Ruy Barbosa. Jornal do Brasil, “Outras
opiniões”, 19/11/2005, p. A11 (com adaptações).
Com relação aos sentidos bem como a aspectos morfossintáticos do texto A ilusão da igualdade, julgue o seguinte item.
Como recurso argumentativo, o autor vale-se da hipótese de existência de uma constituição não-oficial, que, segundo ele, suprimiria totalmente a hipocrisia.