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1370839 Ano: 2009
Disciplina: Português
Banca: BIO-RIO
Orgão: Pref. Barra Mansa-RJ
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Texto III
Língua Portuguesa: uma paixão
Eu estava fazendo uma conferência no Rio de Janeiro sobre Álvares de Azevedo, a minha paixão na escola romântica paulista, e lá estava, assistindo à conferência, Carlos Drummond de Andrade, quando um jovem interferiu: - Dona Lygia, a senhora disse que Castro Alves morreu com 24 anos, Álvares de Azevedo com 21, Fagundes Varela, completamente em convulsões, delirium tremens e tal, com 33 anos, Gonçalves Dias, o indianista extraordinário, esse um pouco mais velho, aos 42 ou 43 anos, num naufrágio; e sem esquecer Casimiro de Abreu: “Ai que saudades que eu tenho da aurora da minha vida...”
Então, o rapaz perguntou: - A senhora não está exagerando? - Eu disse: - Exagerando como, meu jovem? Isso é a própria conferência que eu estou fazendo no Rio de Janeiro. Ele disse: Mas, dona Lygia, todos eles morreram assim novinhos? A senhora não está dando um pouco de ênfase excessiva? – Dei uma risada e respondi: - Eu lamento, mas morreram todos com essa idade assim, mais ou menos jovensíssimos, como diria Mário de Andrade em relação ao Azevedo, esse, então, morreu virgem – 21 anos: - Era virgem – dizia Mário de Andrade, e eu acredito.
Carlos Drummond achou muita graça naquela intervenção desse moço e, quando terminou a conferência, ele me disse: - Lygia, eu vou dar um nome para essa escola: “a escola do morrer cedo”. Beleza! Não é? Só um poeta poderia dar um nome tão lindo para a escola romântica. Então, voltando, “a escola do morrer cedo”, o romantismo, antes, esses poetas. Em seguida, vem a escola parnasiana, eram os poetas mais bem penteados, a gravata no lugar, mais limpinhos, mais arrumados. Escola parnasiana – Olavo Bilac. Assim, dizia eu que, quando era muito menina, li esse soneto de Olavo Bilac: “Última flor do Lácio inculta e bela, que é, a um só tempo, esplendor e sepultura...”, e fiquei impressionada. Então, a língua na qual eu vou escrever (já tinha minhas ambições, eu teria 10, 12 anos, por aí) é esta língua, esplendor e sepultura? Vou escrever numa língua que é sepultura? Fiquei muito impressionada e fui falar com o meu pai, meu pai tinha que resolver as questões todas.
- Papai, que negócio é esse, então, essa língua...? Por que você com mamãe não foram ter esta pobre menina na França, na Inglaterra? Eu escreveria em francês, escreveria... – Olha a colonizada! Menina colonizada! Eu queria era a língua do Primeiro Mundo. Meu pai disse: - Minha filha, se você chegar a escrever bem um dia, e eu espero que sim (os pais têm tanta confiança na gente, não é?) não precisa ser francês, alemão, espanhol. Você ficará na nossa língua mesmo. – Mas esplendor e sepultura, papai? – É isso mesmo. Vai dormir, vai fazer sua lição e chega. – Meu pai encerrava as coisas também assim. Pronto.
Muito tempo depois, estava eu na Faculdade de Direito, já estudante, já escrevendo os meus primeiros contos, quando voltei ao soneto de Bilac, porém voltei com uma outra força e com uma outra interpretação: é que eu estava gostando da minha língua, estava gostando desta língua portuguesa. Estava me apaixonando por ela, enquanto escrevia meus textos, pelos quais me apaixonava. Eu escrevia com paixão. Língua portuguesa – uma paixão! Eu escrevia com paixão. Relendo esse soneto de Olavo Bilac, deparei com o verso que me turbilhonou, completamente: “Última flor do Lácio inculta e bela, que é, a um só tempo, esplendor e sepultura”. Em seguida: “Amo-te assim, desconhecida e obscura”. Aí comecei a chorar, porque achei aquilo tão belo. Amo-te assim, exatamente, a língua desconhecida e obscura. Obscura! Meu pai não vivia mais, pra eu lhe fazer essas confissões. Me apaixonei pela língua, e nesta paixão e, com esta paixão, estou vivendo até hoje. Me perguntam, às vezes: - Se você não pudesse mais escrever, você morreria? – Eu respondo: - Não morreria, mas ficaria tão triste, que seria como se tivesse morrido.
(TELLES, Lygia Fagundes. Palestra proferida na sede do Centro de Integração Empresa-Escola de São Paulo, 31/03/1999 – fragmento.)
O texto III incorpora aspectos sintáticos típicos da modalidade oral da língua, um deles exemplificado no seguinte trecho:
Por que você com mamãe não foram ter esta pobre menina na França, na Inglaterra?
Relendo esse soneto de Olavo Bilac, deparei com o verso que me turbilhonou, completamente.
Muito tempo depois, estava eu na Faculdade de Direito, já estudante.
Me apaixonei pela língua, e nesta paixão e, com esta paixão, estou vivendo até hoje.
 

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