José Lins do Rego, em ensaio admirável dedicado a Fialho de Almeida, põe talvez exagerada ênfase na condição de “telúrico” de Fialho, como virtude acima de qualquer outra num escritor. Tanto que nos dá a impressão de que, em literatura, só os telúricos se salvam. O que me parece generalização muito próxima da verdade; mas não a verdade absoluta.
Nem Eça nem Ramalho foram rigorosamente telúricos e, entretanto, sua vitalidade nas letras portuguesas é das que repelem, meio século depois de mortos os dois grandes críticos, qualquer unguento ou óleo de complacência com que hoje se pretenda adoçar a revisão do seu valor social, os dois tendo atuado como revolucionários ou, antes, renovadores não só das convenções estéticas da língua e da literatura, como das convenções sociais do povo e da nação que criticaram duramente para, afinal, terminarem cheios de ternura patriótica e até mística pela tradição portuguesa. Um, revoltado contra o “francesismo”, ou “cosmopolitismo”, que o afastara dos clássicos, da cozinha dos antigos, da vida e do ar das serras; o outro, enjoado do “republicanismo”, que também o separara de tantos valores básicos da vida portuguesa, fazendo-o exigir da Monarquia e da Igreja, em Portugal, atitudes violentamente contrárias às condições de um povo apenas tocado pela Revolução Industrial e pela civilização carbonífera do norte da Europa.
Gilberto Freyre. Eça, Ramalho como renovadores da literatura em língua
portuguesa. In: Alhos & Bugalhos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978, p. 15 (com adaptações).
Em relação ao texto acima, julgue (C ou E) o item seguinte.
Fialho de Almeida e Ramalho Ortigão são os “dois grandes críticos” que não demonstraram nem complacência nem conservadorismo em relação à necessidade de recuperar aspectos da língua e da literatura de Portugal.