Um belo dia, tive a felicidade de flagrar um instante de
poesia, em que meninos empinavam uma inusitada pipa: dois
pássaros em seu voo. Nas mãos, o gesto de puxar a linha
invisível que os fazia “donos” do voo do pássaro...
De repente, a bronca de uma mulher brava me
devolveu ao chão:
— Cuidado, menino, sai da rua!
E eu comecei a pensar no significado da palavra
cuidado.
Estampada em placas ou usada em nosso cotidiano,
a palavra mostra-se mais com o sentido de mantenha
distância! Mas, e o cuidado da dedicação, atenção especial,
em que houve aprimoramento, aplicação na execução, o
bem-feito de que fala o dicionário? Da raiz latina agitar no
espírito, remoer no pensamento, meditar, pensar, conceber,
preparar...
Num desses dias em que nosso coração está mais
cinza, e a chuva cai pelos nossos olhos e não pelas nuvens,
recebi o cuidado de algumas amigas. Eu me sentia de alma
rasgada, de forças exauridas, e foi tão bom receber tantos
cuidados! Penso que a vida deve estar meio alquebrada,
arranhada, machucada por tanta aridez humana, tanta
ganância e egoísmo, tanto isolamento e individualismo. Ela,
vida, que é da cooperação; ela, que tece uma floresta, vê-se
atropelada por tanta competição! A vida precisa de nossos
cuidados, de nosso carinho, atenção, de atitudes cuidadosas.
Entendo por vida todo esse imenso conjunto de seres,
lugares e relações do qual nós fazemos parte. Essa vida
merece cuidados. Mas por onde começar?!
Uma dica é partir daquilo que você acha que precisa
melhorar, seja nas relações com as pessoas, consigo
mesmo, com um lugar, uma questão social, um desafio
educacional... Convém sempre trabalhar a favor do que se
quer, e não contra o que não se quer. Ao invés de combater
o egoísmo, ser cada vez mais amoroso e cuidadoso. A feiura
de um lugar pode ser canteiro de flores!
Meu avô dizia: “Quando você sair de um lugar, deverá
deixá-lo igual ou melhor do que estava; nunca pior!” Esse
gesto simples pode transformar profundamente a maneira de
nos relacionarmos com um ambiente: sala de aula, jardim,
pátio, praça, por exemplo. E se, ao chegarmos a um lugar,
percebemos que as pessoas o deixaram pior, não devemos
desanimar. Ao contrário do “ninguém faz, então não vou
fazer”, é nesses momentos que fortalecemos a vontade de
semear a ideia-atitude de cuidado. Não fosse o tempo em
que aquele pequeno arbusto resistiu à secura e ao calor do
sol, toda aquela floresta não seria possível!
Não importa em que fase do “reflorestamento”
estamos, já que muitos demorarão a despertar para as
ideias-atitudes de cuidado. O importante é fortalecermos
essa ideia, sabendo que sua atitude de cuidado com a vida,
aparentemente pequena e sem importância, é fundamental
para a criação de um ambiente de transformação.
Então, vamos lançar sementes-ações e
sementes-ideias que transformem as paisagens da atual
secura humana? Vamos ser-tão cuidadosos com a vida e
florestar corações?
Adriana Fortes. Cuidados com a vida. In: 7.º Concurso Cultural Eco Ler é preciso. Biblioteca Virtual Eco Futuro, 2010 (com adaptações).