Visita a Jean-Paul Sartre
Os estudantes do velho Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, do Rio, querem levar uma peça de Sartre, Morts sans Sépulture, sem pagar os direitos. O pedido vem às mãos de Roberto Assumpção, secretário da embaixada, que lida com as coisas culturais. Ele escreve a Sartre e recebe logo a resposta, marcando rendez-vous: meio-dia e meia, no apartamento do escritor. Vou também, como penetra. (...)
Sartre mora na esquina da rue de l’Abbaye, num quarto andar aonde se ascende por uma escada meio escura, em caracol. Esse solteirão de 45 anos vive com sua mãe, e tem um apartamento bem-arranjado. Eu melhoraria de estilo se escrevesse como ele, nesse pequeno escritório cheio de livros, com duas janelas dando para o largo: à esquerda, a torre da igreja, à direita, o Deux Magots. (...)
À primeira vista, o dono da casa lembra Portinari; um Portinari que fosse mais forte e mais rústico. Esse parisiense que deriva da Borgonha e da Alsácia tem alguma coisa de camponês do Norte. É vermelho, tem a pele grosseira e os cabelos cor de palha suja. Os pedaços de costeleta que passam sob os ganchos dos óculos já embranqueceram. É impossível saber se está falando com Roberto Assumpção ou comigo, pois cada olho fixa um de nós, formando um ângulo de 45 graus; mas parece que o esquerdo, que fixa o diplomata, é que está com a razão. (...)
Estava escrevendo quando nos recebeu: explica-me que está acabando seu estudo sobre Jean Genet. Tem em sua frente uma edição de luxo de Notre-Dame-des-Fleurs. Automaticamente reparo nos dois livros que tem sobre a mesa: um é Platão, outro de Mallarmé.
É claro que tem prazer em que os estudantes levem sua peça; faz questão de escrever a eles uma carta, dando licença e agradecendo. Roberto lhe fala sobre o interesse que sua obra desperta no Brasil. Já tem notícia disso, e teve um convite de São Paulo para visitar nosso país. “Este ano foi impossível, mas vou dar um jeito de ir no ano que vem.” Conta que o adido cultural francês em São Paulo lhe prometeu mandar a tradução do ensaio de um escritor brasileiro para publicar na Les Temps Modernes, a sua revista. Não se lembra do nome do escritor.
Faz pergunta sobre nosso país. Diz que tem boa impressão dele pelo que lhe contaram Camus, Barrault e outros amigos. Um povo que tem caráter próprio e muita efervescência cultural. Não tem o ar de dizer gentilezas e parece exprimir uma curiosidade sincera. Digo-lhe que, na linguagem do Rio, “existencialismo” tem um sentido não muito austero e lembra mais Chiquita Bacana do que S⌀ren Kierkegaard. Ri: não é apenas no Brasil, é no mundo; isso começou aqui no quartier e — nota — os adversários fingem levar a sério essa legenda de “imoralismo” da doutrina.
Rubem Braga. Visita a Jean-Paul Sartre [crônica de 20/11/1950]. In: Retratos parisienses. Rio de Janeiro: José Olympio, 2013, 2.ª ed., p.115-7
(com adaptações).
Com relação às ideias desenvolvidas no texto acima, julgue ( C ou E) o item a seguir.
O autor do texto, Rubem Braga, registra que o adido cultural francês em São Paulo teve conhecimento do problema relativo a direitos autorais e prometeu enviar uma cópia do processo traduzida para o francês.