O coração e o sangue
Nenhum órgão é tão mal compreendido quanto o coração. Para começar, ele não se parece nem um pouco com o tradicional símbolo ligado ao Dia dos Namorados, às iniciais de casais entalhadas em troncos de árvores e coisas assim. (O símbolo surge pela primeira vez, como que saído do nada, em pinturas do norte da Itália no início do século XIV, mas ninguém sabe em que foi inspirado). Também não é no coração que colocamos a mão em momentos patrióticos; ele fica mais para o centro do peito. O mais curioso de tudo talvez seja fazermos dele a sede emocional do nosso ser, como quando afirmamos amar alguém de todo o coração ou dizemos que a pessoa partiu nosso coração por nos abandonar. O coração é um órgão maravilhoso e merece todo o nosso aplauso e gratidão, mas não tem nenhum envolvimento em nosso bem-estar emocional.
O que é ótimo. O coração não tem tempo para distrações.
É a coisa mais obstinada dentro de você. Ele tem um único trabalho a fazer e o faz sumamente bem: bater. Um pouco acima de uma vez por segundo, cerca de 100 mil vezes por dia, 3,5 bilhões de vezes durante uma vida, ele bate ritmadamente para impelir o sangue por seu corpo. E não estamos falando de movimentos suaves — são descargas poderosas o bastante para fazer o sangue jorrar por três metros se a aorta for cortada.
Com um ritmo de trabalho tão implacável, parece um milagre a maioria dos corações durar o quanto duram. Por hora, seu coração faz circular cerca de 260 litros de sangue.
São 6240 litros por dia — mais litros bombeados em um dia do que os litros de gasolina que você provavelmente vai pôr de gasolina no carro em um ano. O coração precisa bombear com força suficiente não apenas para mandar o sangue para suas extremidades mais distantes, mas para ajudar a trazer todo ele de volta. Se você está de pé, seu coração fica a mais ou menos 1,20 metro dos seus pés, então há um bocado de gravidade para superar na jornada de volta. Imagine apertar uma bomba de borracha do tamanho de um punho fechado com força suficiente para fazer um fluido subir por um tubo. Agora faça isso mais ou menos uma vez por segundo, 24 horas por dia, sem cessar, por décadas, e veja se não cansa. Já foi calculado (sabe-se lá como, é bom que se diga) que ao longo da vida o coração realiza quantidade de trabalho suficiente para erguer um objeto de uma tonelada por quase 250 quilômetros no ar. É um instrumento verdadeiramente notável. Só que não está nem aí para sua vida amorosa.
(Trecho do livro Corpo, de Bill Bryson. Companhia das Letras, 2020).
“O coração não tem tempo para distrações. É a coisa mais ‘obstinada’ dentro de você”.
Assinale a alternativa que apresenta um sinônimo do termo destacado.