Vó Maria. Ela não fazia leite queimado para mim. Nem brigadeiro. Não era carinhosa. Não me mimava. Não cuidava do jardim de sua casa. Não me dava chá de erva-doce quando eu tinha dor de barriga. Não se vestia bem. Não pintava os cabelos. Não cochilava diante da tevê. Não me dava presentes caros. Não falava muito comigo, nem com ninguém. Não resmungava. Não tinha tosse. Não era católica. Não me levava para passear. Vó Maria vivia sentada nesta cadeira de balanço _ que ninguém quis de herança, quando e la morreu. Eu levei para restaurar, trocar a treliça, dar uma demão de verniz. Não lembro da Vó Maria quando me sento aqui para descansar. Digo apenas que era a cadeira de balanço de minha avó, se alguma visita me pergunta. Vó Maria não tinha nada de especial para que eu me lembre dela. Apenas estava lá, na sua casa, na minha infância. E, por estar lá, era a minha avó, e eu a sua neta. Na vida, fazemos o balanço de nossos amores o tempo todo. O saldo, às vezes, é quase zero.
CARRASCOZA, João Anzanello. Cadeira de balanço (fragmento). ln Catálogo de perdas. São Paulo: SESI-SP editora, 2017.
Vó Maria vivia sentada nesta cadeira de balanço - que ninguém quis de herança, quando ela morreu.
A seleção de diferentes tempos verbais para a avó e outras pessoas transmite, respectivamente, a ideia de: