ESCRIBAS, DA TRADUÇÃO À CRIAÇÃO
O termo escriba traduz bem a solenidade de certos momentos em que se produz escrita. Nas culturas em que a atividade de escrever é muito pouco difundida, a figura do escriba é muito concreta. É ele que, a pedido e mediante pagamento, transpõe para o papel a intenção de escrita alheia. Ele escreve cartas, preenche formulários, produz declarações, redige contratos. Elias Canetti, em uma belíssima passagem do seu livro Vozes de MarraKech, contrapõe as figuras do narrador e do escriba ao relatar, em tom emocionado, a solenidade com que cada um desempenha seus papéis sociais, em um mercado marroquino.
A poucos passos dos narradores, os escreventes ocuparam seu posto. O silêncio reinava entre eles, era a parte mais silenciosa da Djema el-Fina. {...} Os banquinhos espaçavam-se de tal modo que não se pudesse ouvir o que se dizia ao lado. Os mais modestos ou talvez os mais antiquados acocoravam-se no chão. Ali eles refletiam e escreviam num mundo discreto cercado pelo barulho retumbante da praça e contudo apartado dela. {...} Eles mesmos mal estavam presentes ali, apenas uma coisa contava: a dignidade silenciosa do papel.
Será que inexistem entre nós os narradores e os escribas? Será que a atividade de escrever está hoje tão generalizada, em nossa cultura que o papel social do escriba perdeu sua função? Na verdade, são poucos, dentre nós, aqueles que têm autonomia de escrita. Por esse motivo, os escribas continuam a existir em nossa sociedade, embora desempenhem, muitas vezes, um papel um pouco diferente.
Encontramos, no Brasil, tanto o escriba de praça ou mercado - tão bem representados pela personagem Dora, do filme Central do Brasil - como o escriba de escritório. São estes últimos, talvez, os escribas da sociedade moderna. São aqueles que, vivendo no seio de um segmento da sociedade que já adquiriu autonomia de escrita para finalidades mais pragmáticas (preenchimento de formulários e cheques, escrita de cartas e bilhetes, de listas de compras, receitas ...), têm agora a responsabilidade social pela produção de atos de escrita mais elaborados e com uma função mais evidentemente intelectual.
O que escrevem os escribas modernos? Deixando de lado a escrita cartorial, que a nossa sociedade continua a produzir em quantidade espantosa, cabe aos escribas modernos a tarefa de produzir os textos de jornais e revistas, os trabalhos acadêmicos, os livros de natureza vária ... São esses escribas, portanto, que continuam a criar e recriar os textos que por sua vez garantem a continuidade do espaço de leitura.

Segundo o texto, são considerados escribas com função social numa sociedade moderna
I - indivíduos como os apresentados no livro Vozes de Marrakech, os quais, à semelhança dos narradores, trabalham nos mercados marroquinos.
II - pessoas como a personagem principal do filme Central do Brasil, a professora aposentada Dora.
III - jornalistas, acadêmicos e escritores envolvidos em práticas diárias com a criação e a recriação de textos.
Está(ão) correta(s)