O incêndio principiara no saguão das bacias.
Por maior incremento no desastre, ardia também, no pátio, uma porção de madeira que ficara das arquibancadas, aquecendo as paredes próximas, ressecando o travejamento, favorecendo a propagação do fogo.
O susto de tal maneira me surpreendera, que eu não tinha exata consciência do momento. Esqueciame a ver os dragões dourados revoando sobre o Ateneu, as salamandras imensas de fumaça arrancando para a altura, desdobrando contorções monstruosas, mergulhando na sombra cem metros acima.
O jardim era invadido pela multidão: vociferavam lamentações, clamavam por socorro. Dominando a confusão das vozes, ouvia-se o apito da polícia em alarma, cortante, elétrico, e o rebate plangente de um sino, a distância, como o desânimo de um paralítico que quisera vir.
O fogo crescia ímpetos de entusiasmo, como alegrado do próprio clarão, desfeiteando a noite com a vergasta das labaredas.
Sobre o pátio, sobre o jardim, por toda a circunvizinhança choviam fagulhas, contrastando a mansidão da queda com os tempestuosos arrojos de incêndio. Por toda a parte caíam escórias incineradas, que a atmosfera flagrante repelia para longe como folhas secas de imensa árvore sacudida.
Quando as bombas apareceram, desde muito tinham começado os desabamentos. De instante a instante um estrondo prolongado de descarga, às vezes surdo, agitando o solo como explosões subterrâneas. Às vezes, a um novo alento, das chamas, a coluna ardente desenvolvia-se muito, e avistavam-se as árvores terrificadas, imóveis, as mais próximas crestadas pelas ondas de ar tórrido que o incêndio despedia. As alamedas, subitamente esclarecidas, multiplicavam as caras lívidas, olhando. Na rua, ouvia-se o arquejar pressurosamente uma bomba a vapor; as mangueiras, como intermináveis serpentes, insinuavam-se pelo chão, colavam-se às paredes, desapareciam por uma janela. Nas cimalhas, destacando-se em silhueta, sobre as cores terríveis do incêndio, moviam-se os bombeiros.
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Para o terraço lateral, onde conservava-se Aristarco, impassível sob a chuva chamuscante das fagulhas, chegavam continuamente os destroços miserandos da salvação: armários despedaçados, aparelhos, quadro de ensino inutilizados, mil fragmentos irreconhecíveis de pedagogia sapecada.
POMPÉIA, Raul. O ateneu, São Paulo: Ática, 1991. p. 146-47.
Para a questão 08, leia os fragmentos 01 e 02 do Texto de Raul Pompéia.
FRAGMENTO 01
As alamedas, subitamente esclarecidas, multiplicavam as caras lívidas, olhando.
As alamedas, subitamente esclarecidas, multiplicavam as caras lívidas, olhando.
FRAGMENTO 02
(...) mil fragmentos irreconhecíveis de pedagogia sapecada.
(...) mil fragmentos irreconhecíveis de pedagogia sapecada.
Em que alternativa aparece a classificação pelo sentido das figuras de linguagem contidas nos fragmentos acima?