A girafa branca
As girafas têm todos os motivos para achar que a vida não é fácil. São o alvo da cobiça dos caçadores e da fome das feras. Aprenderam a usar seus longos pescoços como se fossem periscópios e do alto dos seus cinco metros de altura vigiam, por cima dos arbustos, os seus possíveis inimigos. Ao menor sinal de perigo, entram em fuga estratégica.
Nesse galope salvador deixam quase sempre para trás a figurinha difícil da família: a girafa branca, raridade ainda encontrada na fauna do Quênia. A girafa branca sofre a discriminação de toda a manada. Malvista e mal-amada, segue humildemente as outras, de longe. É repelida o tempo todo pelas girafas comuns, cobertas de belas nódoas da espécie.
O fenômeno da girafa desbotada se explica por uma carência parcial de melanina, que impede a formação de pigmentos na pela. Mas não se trata de um animal albino. Os albinos não têm melanina nenhuma e, por isso, suas mucosas são muito avermelhadas. A girafa branca ao contrário possui olhos grandes e escuros.
Mas nem esses olhos sombrios e meigos comovem suas companheiras de manada. Que também não se enternecem com o fato de que ela possui língua imensa e azul-escura, como qualquer outra girafa. É branca e, por isso, uma verdadeira ovelha negra da família. Apenas duas ou três companheiros mais avançadas a aceitam. Com restrições.
Entre as hipóteses formuladas pelos especialistas para explicar o preconceito, figura a da sobrevivência: a girafa branca constituiria um alvo fácil demais para os inimigos da manada. Daí a sua vida de bode expiatório.
MANCHETE. Rio de Janeiro. 1330:56, out/77.
“Girafa” se escreve com “g”. Também se escreve com “g”: