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2926077 Ano: 2023
Disciplina: Português
Banca: UFG
Orgão: UFG

A Falência

Julia Lopes de Almeida

Em caminho de casa, Francisco Teodoro, recostado em um bonde, persistia em querer ler um jornal da tarde, sentindo que as ideias lhe fugiam para um curso perigoso. O êxito do Torres quizilava-o. Parecia-lhe que o outro lhe taparia o caminho, impedindo-o de chegar ao seu último ponto de mira. Galgava-lhe de assalto a dianteira, para se quedar sempre na sua frente, como um obstáculo. Aquela conquista de fortuna, feita de relance, perturbava-o, desmerecia o brilho das suas riquezas, ajuntadas dia a dia na canseira do trabalho. A vida tem ironias: teria ele sido um tolo? Talvez, e para se certificar reviu a sua vida no Rio, desde simples caixeiro, quase analfabeto, com a cabeça raspada, a jaqueta russa e os sapatões barulhentos. Tinha ainda fresco na memória o dia do desembarque - estava um calor! - e de como depois rolara aos ponta-pés, mal-vestido, mal alimentado, com saudades da broa negra, das sovas da mãe e das caçadas aos grilos pelas charnecas do seu lugar. Pouco a pouco outros grilos cantaram aos seus ouvidos de ambicioso. O som do dinheiro é música; viera para o ganhar, atirou-se ao seu destino, tolerando todas as opressões, dobrando-se a todas as exigências brutais, numa resignação de cachorro. Assim correram anos, dormindo em esteiras infectas, molhando de lágrimas o travesseiro sem fronha, até que o seu mealheiro se foi enchendo, enchendo avaramente. Aquela infância de degredo era agora o seu triunfo. Vinha de longe a sua paixão pelo dinheiro; levado por ela, não conhecera outra na mocidade. Todo o seu tempo, toda a sua vida tinham sido consagrados ao negócio. O negócio era o seu sonho de noite, a sua esperança de dia, o ideal a que atirava a sua alma de adolescente e de moço. Não podia explicar, como, só pelo atrito com pessoas mais cultivadas, ele fora perdendo, aos poucos, a grossa ignorância de que viera adornado. A letra desenvolveu-se, tornou-se firme, e a sua tendência para contas fez prodígios, aguçada com o sentido na verificação de lucros. Relendo cifras, escrevendo cartas, formulando projetos, e observando atentamente o seu trabalho e o alheio, tornara-se um negociante conhecedor do que tinha sob as mãos, e um homem limpo, a quem a sociedade recebia bem. Não pudera ser menino, não soubera ser moço, dera-se todo à deusa da fortuna, sem perceber que lhe sacrificava a melhor parte da vida. Para ele, o Brasil era o balcão, era o armazém atulhado, onde o esforço de cada indivíduo tem o seu prêmio. Fora do comércio não havia nada que lhe merecesse o desvio de um olhar... Tempos de amargura e de esperança, aqueles! Sentia-se só; começava a cansar-se e a enjoar as mulheres fáceis, com quem convivia em relações momentâneas. Mesmo a Sidônia enervava-o com os seus arrufos... e as suas denguices. Atirou-se a proteger as instituições do seu país, a andar com medalhões e fazer mordomias na Beneficiência. No fundo, não era só a distração que ele buscava, nem a caridade que ele exercia; uma outra causa lhe filtrava n’alma aquela vocação para o benefício... E a comenda chegou. Foi só depois de comendador que Teodoro se sentiu vexado daquela habitação e se mudou para um segundo andar da rua da Candelária, que mobiliou a vinhático, com exuberância de cromos pelas paredes. Achou, ainda assim, que à sua casa alegre faltava qualquer coisa... Viera-lhe a dispepsia. Que insônias! Um médico, consultado, aconselhara-lhe uma viagem a terra ou o casamento, para a regularização de hábitos.

Ele achara cedo para a viagem: solidificaria primeiro a fortuna.

A ideia do casamento parecia-lhe mais salvadora. Para que lhe serviria o que juntara, se o não compartilhasse com uma esposa dedicada e meia dúzia de filhos que lhe herdassem virtudes e haveres? No seu sonho começou a esboçar-se a ideia de um herdeiro. Teria um rapaz, que usasse o seu nome, seguisse as suas tradições e fosse, sobretudo, um continuador daquela casa da rua de S. Bento, que engrandeceria com o seu prestígio, a sua mocidade, bem assente no apoio e na experiência paterna. O filho seria a sua estátua viva, nele reviveria, mais perfeito e melhor. Esse ao menos teria infância, seria instruído.

Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_actio n=&co_obra=7552>. Acesso em: 10 jul. 2023.

O romance A falência, de Julia Lopes de Almeida, foi publicado em 1901, embora o seu reconhecimento devido tenha somente se solidificado nos últimos anos, especialmente pela atualidade de sua temática. Sobre a relação do personagem Francisco Teodoro com o trabalho, é possível caracterizá-la como

 

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