Texto 2
A Camisa do Homem Feliz
Ítalo Calvino
Um rei tinha um filho único e gostava dele como da luz dos próprios olhos. Mas o prlncipe estava sempre descontente. Passava dias inteiros debruçado na sacada a olhar para longe.
- Mas o que lhe falta? - perguntava-lhe o rei. O que é que você tem? - Está apaixonado? Se quer uma moça qualquer, diga-me e será sua esposa, seja ela a filha do rei mais poderoso da terra ou a mais pobre camponesa.
- Não, papai, não estou apaixonado.
E o rei tentava distraí-lo de todas as formas! Teatros, bailes, música, cantos; mas nada adiantava, e a cada dia desapareciam do rosto do príncipe as nuances do vermelho.
O rei publicou um edital, e de todas as partes do mundo vieram pessoas mais instruldas: filósofos, doutores e professores. Mostrou-lhes o prlncipe e pediu conselhos. Eles se retiraram para pensar e voltaram à presença do rei.
- Majestade, pensamos, lemos as estrelas; eis o que deve fazer. Procure um homem que seja feliz, mas feliz em tudo, e troque a camisa de seu filho com a dele.
Naquele mesmo dia, o rei mandou os embaixadores mundo afora, a fim de procurar o homem mais feliz.
Levaram-lhe um padre.
- O senhor é feliz? Perguntou o rei.
- Sim, majestade!
- Muito bem. Ficaria contente em se tornar o meu bispo?
- Quem me dera, Majestade!
- Rua! Fora daqui! Procuro um homem feliz e contente com a sua condição; e não um que deseja estar melhor do que está.
E o rei ficou esperando outro. Havia um rei vizinho, disseram-lhe, que era feliz e contente de fato: tinha esposa bonita, um monte de filhos, vencera todos os inimigos na guerra e seu pais estava em paz. Imediatamente, cheio de esperança, o rei mandou que os embaixadores fossem lhe pedir a camisa.
O rei vizinho recebeu os embaixadores e:
- Sim, sim, não me falta nada, porém é pena que quando a gente tem tantas coisas, tenha que morrer e deixar tudol Com tal pensamento, sofro tanto que não durmo à noite!
E os embaixadores acharam melhor ir embora.
Para desafogar seu desespero, o rei foi caçar. Atirou em uma lebre e pensava havê-la atingido, mas a lebre, mancando, fugiu. O rei a perseguiu e afastou-se do séquito. No meio dos campos, ouviu um homem cantando uma cançoneta. O rei parou: "Quem canta assim, só pode ser felizl", e seguindo o canto entrou numa vinha, vendo entre as fileiras um jovem que cantava, podando as videiras.
- Bom dia, Majestade - cumprimentou o jovem. Tão cedo e já pelos campos?
- Bendito seja você! Quer que o leve comigo para a capital? Será meu amigo.
-Ai, ai, ai, Majestade, não, não mesmo, obrigado. Não trocaria de lugar nem com o Papa.
- Mas por que você, um rapaz tão forte ...
- Eu lhe digo que não. Estou contente assim e basta.
"Finalmente um homem feliz!", pensou o rei.
- Escute, jovem, deve me fazer um favor.
- Se puder, de todo o coração, Majestade.
- Espere um momento. E o rei, que não cabia mais em si de alegria, correu em busca de seu séquito: - Venham! Venham! Meu filho está salvo. E os conduz até o jovem. - Bendito jovem, diz, dar-lhe-ei tudo o que quiser! Mas me dê, me dê ...
- O que, Majestade?
- Meu filho está à beira da morte! Só você poderá salvá-lo. Venha aqui, espere!
E o segura, começa a desabotoar-lhe o casaco. De repente, estaca. Tombam-lhe os braços.
O homem feliz não tinha camisa.
Calvino, I. Fábulas Italianas. Companhia de bolso. 1990.
Assinale a opção em que o trecho"- Meu filho está à beira da morte! Só você poderá salvá-lo." (29º§) está transposto para o discurso indireto corretamente.