Texto
Que outras lições poderia eu receber de um português que viveu no século XVI, que compôs as rimas e as glórias, os naufrágios e os desencantos pátrios de Os Lusíadas, que foi um gênio poético absoluto, o maior da nossa Literatura, por muito que isso pese a Fernando Pessoa, que a si mesmo se proclamou como o Super-Camões dela? Nenhuma lição que estivesse à minha medida, nenhuma lição que eu fosse capaz de aprender, salvo a mais simples que me poderia ser oferecida pelo homem Luís Vaz de Camões na sua extrema humanidade, por exemplo, a humildade orgulhosa de um autor que vai chamando a todas as portas à procura de quem esteja disposto a publicar-lhe o livro que escreveu, sofrendo por isso o desprezo dos ignorantes de sangue e de casta, a indiferença desdenhosa de um rei e da sua companhia de poderosos, o escárnio com que, desde sempre, o mundo tem recebido a visita dos poetas, dos visionários e dos loucos.
Ao menos uma vez na vida, todos os autores tiveram ou terão de ser Luís de Camões, mesmo se não escreveram as redondilhas entre fidalgos da corte e censores do Santo Ofício, entre os amores de antanho e as desilusões da velhice prematura, entre a dor de escrever e a alegria de ter escrito, foi a este homem doente que regressa pobre da Índia, aonde muitos só iam para enriquecer, foi a este soldado cego de um olho e golpeado na alma, foi a este sedutor sem fortuna que não voltará nunca mais a perturbar os sentidos das damas do paço, que eu pus a viver no palco da peça de teatro chamada: Que Farei com Este Livro?, em cujo final ecoa uma outra pergunta, aquela que importa verdadeiramente, aquela que nunca saberemos se alguma vez chegará a ter resposta suficiente: “Que farei com este livro?”
José Saramago. Discurso proferido por ocasião do recebimento do Prêmio Nobel de Literatura. Estocolmo, 1998 (com adaptações).
No discurso de José Saramago, a obra Os Lusíadas e seu autor, Luís de Camões, são mencionados com admiração e reverência. Julgue (C ou E) o item a seguir, com base no texto.
Pelo que se depreende do texto, José Saramago examinou a obra camoniana no drama Que Farei com Este Livro?, representado no palco do paço português.