Discriminação às claras
Muito já se discutiu acerca do preconceito racial no Brasil. O assunto, no entanto, está longe de ser encerrado e é o tema das pesquisas dos economistas Waldir José Quadros e Márcio Pochmann, ambos da Universidade Estadual de Campinas. Os estudos, embora desenvolvidos de forma independente, chegaram a conclusões semelhantes sobre a situação dos negros e pardos no mercado de trabalho: eles têm menos acesso a postos bem remunerados.
Há mais de 10 anos, Quadros pesquisa a estrutura social do país e o estudo sobre a desigualdade racial veio como uma consequência dos anteriores. “A discriminação constitui um elemento importante da desigualdade social brasileira”, afirma. O economista usou como dados primários os números fornecidos pelas Pesquisas Nacionais por Amostragem de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Pnad/IBGE), relativos aos anos de 1992 e 2002.
Algumas das conclusões da pesquisa apenas confirmaram o que muitos especialistas já esperavam: negros e pardos estão concentrados nas ocupações mais mal remuneradas e nas faixas inferiores de escolaridade. Segundo Quadros, no entanto, a nova metodologia tornou mais claro o quadro de discriminação por raça e gênero, porque permitiu explorar melhor as heterogeneidades existentes no interior de cada grupo ocupacional.
A análise dos dados levou à conclusão de que, embora as desigualdades de rendimentos pessoais associados a gênero e raça sejam pequenas no interior de cada grupo ocupacional, as condições de acesso aos cargos mais bem remunerados são diferentes. “Negros e pardos, e sobretudo as mulheres, sofrem discriminação no mercado de trabalho e oportunidades, bem como no âmbito da educação”, diz o pesquisador. “Um engenheiro ou médico negros não ganham significativamente menos que seus colegas brancos. O problema é que pouquíssimos conseguem alcançar essas posições”.
A hierarquia social descrita por Quadros tem no topo os homens brancos e vai descendo para mulheres brancas, homens negros e mulheres negras. Ao comparar os números relativos a 1992 e 2002, é possível observar uma redução na desigualdade dos rendimentos entre esses grupos. “No entanto, essa alteração decorre da retração dos rendimentos dos homens brancos, não de um progresso generalizado nos outros segmentos sociais”, alerta o economista.
(CHAGAS, Catarina. Ciência Hoje. Jan./fev. 2005.)
O texto apresenta como evidência da discriminação a negros e pardos, em especial as mulheres: