TEXTO PARA A QUESTÃO.
E se...
E se eu não tivesse brigado, discutido, me entregue? E se
eu tivesse feito diferente, dito de outra forma, me retirado em
silêncio? E se eu não tivesse aceitado o conselho, tivesse
tomado uma decisão por mim mesmo ou ainda, se tivesse
escutado o que me diziam, talvez hoje fosse diferente? Talvez
eu não estaria aqui escrevendo e você não estivesse aí lendo.
Não nos damos conta de que se não tivéssemos feito o que
fizemos, dentro do possível que éramos na época, não teríamos
chegado até aqui do jeito que chegamos. O “e se” é suspenso.
O agitamos feito um papel manteiga que se dobra diante do
vento. Tentar prever algo, saber de antemão é congelar a vida.
Construímos tensões ao longo do tempo. Ficamos tristes,
desapontados, frustrados. Somos uma espécie de taças sendo
preenchidas e esvaziadas constante e silenciosamente. Talvez
pudéssemos pensar que o “e se” funciona como ruínas que
carregamos dentro de nós. Somos tão cheios de
impossibilidades e nos demoramos nelas feito crianças
birrentas que insistem em algo que já passou. Pensar no que
poderia ter acontecido se tivéssemos feito de outro modo é
ficar velando ossos. O tempo revira a vida todos os dias.
Precisamos aprender a passar por nossas ruínas internas
sabendo por onde pisamos, aceitando o que se perdeu. Temos
tanto medo de morrer, mas nem nos damos conta de que ao
ficarmos fixados no “e se”, flertamos com o que já não tem
mais vida alguma e nos assombra feito fantasmas.
Alimentamos fantasmas pela escuridão que projetamos.
Estar vivo é errar. Ninguém nasce com o mapa do
caminho. Vamos inventando aos poucos. Acertando aqui, nos
queimando logo ali. Pisando em falso numa memória,
tropeçando numa escolha equivocada, correndo atrás dos
sonhos. Se conseguirmos olhar para traz e pensar que hoje
faríamos de outro jeito, eis a constatação de que estamos nos
movimentando. Mesmo que estejamos andando em círculos,
repetindo, repetindo. Até que um dia nos damos conta de que
já passamos por esta mesma paisagem muitas vezes. Agora
podemos reconhecer por onde andam os buracos que nos
machucam.
Invocar o “e se” é permanecer voltado para trás. É ficar
olhando para lápides e estátuas trincadas cobertas de musgo.
Talvez pudéssemos nos permitir a perguntar: “e agora”? Todos
carregamos coisas mal resolvidas dentro de si, mas para quê?
Nossos cacos da infância, restos de histórias interrompidas
compõem nosso chão, é fato, mas mais do que sermos
metamorfoses ambulantes, somos trajetórias e trajetos que se
fazem e desfazem e se refazem o tempo todo
Autora: Adriana Antunes - GZH (adaptado).
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