Magna Concursos
3728612 Ano: 2025
Disciplina: Português
Banca: FUNDATEC
Orgão: Pref. Lajeado-RS
Em segredo, somos sempre estranhos

Por Fabrício Carpinejar


As grávidas têm desejos alimentares de exceção.

Existe uma explicação científica: os hormônios da gravidez, como estrogênio e

progesterona, alteram a percepção do sabor e do aroma dos alimentos, levando a mudanças

súbitas nas preferências tradicionais. A gestante também precisa de mais nutrientes para

sustentar o crescimento do feto, o que pode acarretar fantasias detalhistas por determinados

componentes. Por exemplo, a ______ de ferro é capaz de causar ______ por uma churrascaria.

Só que nem a ciência justifica certas combinações que as pessoas costumam adotar em seu

cotidiano de lanchinhos e refeições.

É quase inconcebível alguém querer completar chocotone com fatias cruas de presunto.

Não tem fundo racional, mas emocional. O paladar é um magneto de lembranças

confortáveis. Por alguma sensação de segurança, você retoma uma mistura que já fez na

infância, na casa dos avós ou em tempos de geladeira vazia.

Procura o que tranquiliza, reprimindo o medo e a ansiedade. É uma saciedade espiritual,

acima de tudo.

O inusitado também surge pelas sobras. A invenção nasce da escassez, juntando o que está

ao alcance: o doce com o salgado, a sobremesa com o prato principal , num afã do apetite em

queimar etapas. Assim, casamentos atípicos atravessam gerações, como goiabada com queijo

— quem teve essa ideia no período colonial de Minas Gerais possivelmente sofreu preconceito

na época.

O que é intragável para uns é tradicional para outros. Cuscuz com leite no Nordeste, purê

no cachorro-quente em São Paulo, pastel com caldo de cana nas feiras do interior paulista e

nossa salada de batata com espeto corrido já são carteiras de identidade regionais.

Há ainda os arranjos extravagantes internacionais: a melancia com queijo feta na Grécia;

o chocolate com bacon, o picles com manteiga de amendoim ou as fritas com milk-shake nos

Estados Unidos.

A banana talvez seja a campeã das intercorrências invasivas, a maior penetra da festa das

mutações. Tem gente que come banana com feijão, com catchup, no pão com queijo coalho.

A maionese não perde em participações e duetos insólitos, cobrindo bolo doce ou gelatina

salgada.

Essa emulsão inocente de ovos e óleo é contumaz em seu crime de invasão: entra no miojo

como se fosse molho branco, na salsicha como se fosse mostarda, no sushi como se fosse cream

cheese, na salada de frutas como se fosse chantilly. Isso quando não soterra uma pizza inteira

como se fosse catupiry. É um dublê de molhos e coberturas.

Não dá para julgar nem condenar o comportamento de quem embaralha produtos. Não é

pecado, não é cafonice, não é falta de noção.

Guarde a sua careta, os seus pruridos, o seu beiço de nojo.

A ousadia é irmã gêmea da tentativa.

Se olhar no âmago de seus hábitos, encontrará uma alquimia um tanto improvável. Ou pela

cultura do lugar a que pertence, ou por uma criatividade que virou receita particular.

Em segredo, sem ninguém por perto, sem câmeras, longe das redes sociais, na intimidade

mais primitiva, somos sempre estranhos.



(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/carpinejar/noticia/2025/06/em-segredo-somossempre-estranhos - texto adaptado especialmente para esta prova).
Com base na intencionalidade discursiva, assinale a alternativa que melhor representa a finalidade do texto de Fabrício Carpinejar.
 

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