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2571324 Ano: 2021
Disciplina: Português
Banca: DIRENS Aeronáutica
Orgão: EEAr

Como ser brasileiro em Lisboa sem dar (muito) na vista

Sim, eu sei que não será culpa sua, mas, se você desembarcar em Lisboa sem um bom domínio do idioma, poderá ver-se de repente em terríveis águas de bacalhau. Está vendo? Você já começou a não entender. O fato é que, como dizia Mark Twain a respeito da Inglaterra e dos Estados Unidos, também Portugal e Brasil são dois países separados pela mesma línguaa. Se não acredita, veja só esses exemplos. (...)

Um casal brasileiro, amigo meu, alugou um carro e seguia tranquilamente pela estrada Lisboa-Porto, quando deu de cara com um aviso: “Cuidado com as bermas”. Eles ficaram assustados – que (...) seria berma? Alguns metros à frente, outro aviso: “Cuidado com as bermas”. Não resistiram: pararam no primeiro posto de gasolina, perguntaram o que era uma berma e só respiraram tranquilos quando souberam que berma era o acostamento.

Você poderá ter alguns probleminhas se entrar numa loja de roupas desconhecendo certas sutilezas da língua. Por exemplo, não adianta pedir para ver os ternos – peça para ver os fatos. Paletó é casaco. Meias são peúgas. Suéter é camisola – mas não se assuste, porque calcinhas femininas são cuecas. (Não é uma delícia?) Pelo mesmo motivo, as fraldas de crianças são chamadas cuequinhas de bebê. Atenção também para os nomes de certas utilidades caseiras. Não adianta falar em esparadrapo – deve-se dizer pensos. Pasta de dente é dentífrico. Ventilador é ventoinha. (...)

As maiores gafes de brasileiros em Lisboa acontecem (onde mais?)d nos restaurantes, claro. Não adianta perguntar ao gerente do hotel onde se pode beliscar alguma coisa, porque ele achará que você está a fim de sair aplicando beliscões pela rua. Pergunte-lhe onde se pode petiscar. Os sanduíches são particularmente enganadores: um sanduíche de filéc é chamado de prego; cachorros-quentes são simplesmente cachorros. E não se esqueça: um cafezinho é uma bica; uma média é um galão e um chope é uma imperial. (...)

Um sujeito preguiçoso é um mandrião. Um indivíduo truculento é um matulão. Um tipo cabeludo é um gadelhudo. Quando não se gosta de alguém, diz-se: “Não gramo aquele gajo”. Quando alguém fala mal de você e você não liga, deve-se dizer: “Estou-me nas tintas”; ou então: “Estou-me marimbando” (...)

Mas o meu pior equívoco em Portugal foi quando pifou a descargab da privada do meu quarto de hotel e eu telefonei para a portaria: “Podem me mandar um bombeiro para consertar a descarga da privada?” O homem não entendeu uma única palavra. Eu devia ter dito: “Ó pá, manda um canalizador para reparar o autoclisma da retrete.”

CASTRO, Ruy. Como ser brasileiro...Viaje bem. Revista de Bordo da VASP, 8(3), 1978. In: PRESTES, Mari Luci de Mesquita. Leitura e (Re)escritura de textos: subsídios teóricos e práticos para o seu ensino. SP: Editora Rêspel, 2001. (texto adaptado)

Assinale a opção em que o termo destacado foi classificado incorretamente.

 

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