Testamento do Sumé
Saí do seio de Jaci,
Nas asas me pendurei
Do grande, temível Tupã;
Caí direito no mar,
Entrei na igara veloz,
Depois alcancei a terra,
Atravessei o sertão
Comendo bichos do mato;
Caaporas me ajudavam;
Curupiras vão na frente
Pra me mostrar o caminho;
Entrei na taba dos homens,
Na minha cabeça pus
Um gracioso canitar,
Minha cintura cobri
Com enduape de mil cores,
Furei beiço, pus botoque,
O maracá agitei
Que nem um homem qualquer;
Na poracê tomei parte,
Dançaram em roda de mim
Soltando uivos e gritos.
Depois ao homem ensinei
A cuidar da terra dele,
Conforme boa receita
Que me deram lá na lua;
Plantei a boa mandioca
Que se transforma em farinha.
As fazendas prosperavam.
Quem fez tudo aquilo, eh!
Não foi ninguém, foi Sumé.
Pensam que me nomearam
Cacique supremo d’eles?
Qual nada, me desprezaram,
Ficaram com muita inveja,
Me pegaram distraído,
Me expuseram na maloca,
Fatal muçurana prenderam
Na cintura e no pescoço
De quem sempre os ajudou.
Por um triz eu não morri;
Mas Tupã naquele instante
Mandou um golpe de vento,
Leva a maloca nos ares,
Eles então se ajoelham.
Desamarram a muçurana
Me dão cauim a beber.
Mas eu perdi a confiança,
Sumi pra sempre no mar;
Pra eles não se esquecerem
Do avô a quem maltrataram
Deixei na laje da costa
As impressões de meus pés.
O país é mesmo agrícola,
Não tenham dúvida não:
Antes de fazerem a máquina
Para a mandioca moer,
Tratem de plantar mandioca,
Senão acaba a fazenda.
Adeus, vão plantar batatas.
Murilo Mendes. Testamento do Sumé.
No poema Testamento do Sumé, escrito, em 1932, pelo poeta modernista Murilo Mendes, a figura central é Sumé, que, segundo os mitos tupis, ensinou aos indígenas as formas de tirarem seu sustento da natureza.
A partir desse texto e dessas informações, julgue o item.
Com relação à situação descrita na primeira estrofe do poema, suponha que Sumé, ao cair no mar — ponto A na figura a seguir —, tenha remado, em sua igara, durante 15 minutos, em linha reta, à velocidade de 20 km/h, até atingir o continente — ponto B — e, a partir desse ponto, tenha caminhado, durante 4 horas e 12 minutos, em linha reta, fazendo ângulo de 45º com a direção anterior, à velocidade de 5 km/h, até atingir a “taba dos homens” — ponto C. Nessa situação, com base nessas informações e na figura abaixo, e tomando-se 1,4 como valor aproximado para !$ \sqrt{2} !$ , é correto concluir que a distância d entre o ponto onde Sumé caiu no mar e a referida taba era inferior a 24 km.
