Ao nos contar a história dos percalços de um funcionário em ascensão pela burocracia do Brasil imperial, Antonio Candido revisita as questões cruciais de nosso século XIX.
Nascido em um Rio ainda joanino em 1810, Antonio Nicolau Tolentino entrou para o serviço público em 1825, atravessou os anos turbulentos das Regências e do início do Segundo Reinado, falecendo em julho de 1888, logo após a abolição da escravatura. O personagem viveu, portanto, quase todo o período. Em si, o fato não tornaria mais, ou menos, interessante sua trajetória pessoal, não fosse ela significativa o suficiente para revelar a dinâmica social do tempo. Filho de lavradores pobres ou de mãe solteira — não se sabe ao certo —, saiu da obscuridade por esforço próprio, foi reconhecido em seu valor por figurões da política, arranjou um bom casamento entre a elite e terminou seus dias como alto funcionário.
Da roça aos salões de baile na Corte, a subida não foi feita sem ânimo prestativo, hesitações, orgulho das próprias qualidades, espera do momento oportuno e resignação de quem teve de ouvir calado. Tudo isso num quadro social que não lhe garantia qualquer reconhecimento e é uma constante brasileira até hoje. Entretanto, Tolentino não apenas abaixava a cabeça para resguardar sua carreira, como faria um adulador medíocre; havia nele um idealismo, no bom sentido do termo, que obviamente encontrou resistências quando foi posto em prática. O nervo da narrativa de Antonio Candido é o conflito entre as intenções racionais do burocrata e a politicagem ampla, geral e irrestrita.
Não se trata, contudo, de luta do bem contra o mal, pois tal embate tem uma especificação histórica cuja raiz se encontra no próprio surgimento do Brasil como país. Em outras palavras, o Brasil independente afirmava-se como nação moderna, adotava uma Constituição, um Parlamento, fraque e cartola, ao mesmo tempo em que mantinha a maior parte de sua população fora do âmbito da cidadania.
Milton Ohata. “Ascensão à brasileira” - Resenha de Um funcionário
da monarquia: ensaio sobre o segundo escalão, de Antonio Candido.
In: Novos estudos CEBRAP. n.º 34, nov./2002 (com adaptações).
Julgue o item seguinte, relativos às ideias do texto acima.
Infere-se que o autor do texto considera Antonio Nicolau Tolentino socialmente excluído no Brasil da época da monarquia.