[...]
1 — Farei o que puder. Nenhuma imaginação?
— Nenhuma; antes faze correr o boato de que um tal dom é
ínfimo.
4 — Nenhuma filosofia?
— Entendamo-nos: no papel e na língua alguma, na
realidade nada. "Filosofia da história", por exemplo, é uma
7 locução que deves empregar com frequência, mas proíbo-te
que chegues a outras conclusões que não sejam as já
achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a
10 reflexão, originalidade, etc., etc.
— Também ao riso?
— Como ao riso?
13 — Ficar sério, muito sério...
— Conforme. Tens um gênio folgazão, prazenteiro, não hás
de sofreá-lo nem eliminá-lo; podes brincar e rir alguma vez.
16 Medalhão não quer dizer melancólico. Um grave pode ter
seus momentos de expansão alegre. Somente, — e este
ponto é melindroso...
19 — Diga...
— Somente não deves empregar a ironia, esse
movimento ao canto da boca, cheio de mistérios,
22 inventado por algum grego da decadência, contraído por
Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos
cépticos e desabusados. Não. Usa antes a chalaça, a
25 nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem
biocos, nem véus, que se mete pela cara dos outros, estala
como uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e
28 arrebentar de riso os suspensórios. Usa a chalaça. (...)
Meia-noite? Entras nos teus vinte e dois anos, meu peralta;
estás definitivamente maior. Vamos dormir, que é tarde.
31 Rumina bem o que te disse, meu filho. Guardadas as
proporções, a conversa desta noite vale O Príncipe de
Machiavelli. Vamos dormir.
FIM
Machado de Assis. A teoria do medalhão. In: Obra completa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, v. II, 1994 (com adaptações).
Além de expressar declaradamente o conceito de ironia no conto A teoria do Medalhão, Machado de Assis faz uso desse recurso linguístico recorrentemente, de maneira que a ironia passa a ser um traço marcante em sua obra. Acerca do recurso da ironia, como figura de sentido, na obra de Machado de Assis, assinale a alternativa incorreta.