Para responder às questões 01 a 10, leia o texto abaixo.
O diminutivo cruel "gentinha" estigmatizou meio mundo
1 Também achei divertido o recente lançamento de
2 Tati Bernardi, "A Boba da Corte", mas é desonesto
3 resumi-lo apenas a isso. O livro é um retrato tocante
4 da distinção de classe e abala os leitores que têm um
5 músculo batendo dentro do tórax. A gente se
6 reconhece o tempo todo, seja se colocando no lugar
7 da Tati, seja assumindo os outros lugares da mesa em
8 que ela instala a elite intelectual e social brasileira.
9 Enquanto eu avançava na leitura, lembrei de uma
10 palavra que, quando criança, escutava com frequência
11 em rodas de adultos. Era um diminutivo cruel usado
12 sem parcimônia. Como se fossem aristocratas de
13 novela, ninguém se inibia de classificar como "gentinha"
14 a pessoa — preferencialmente um jovem — que
15 revelasse indícios de habitar a parte inferior da maldita
16 pirâmide. E esses indícios podiam ser abundantes:
17 o bairro periférico onde a colega de aula morava;
18 a profissão do pai do namorado: se não é doutor, faz
19 o quê?; o forte sotaque de quem chegava do interior;
20 o tom da pele, claro; andar de ônibus, saltar na
21 parada; ser sócio de um clube fuleiro; ter um nome
22 americanizado, de estrela de cinema: a bandeira
23 indiscutível de que a pessoa não era bem-nascida.
24 O que era ser bem-nascida? Era fazer parte do
25 "nós" e não do "eles". Ser João e não Michael. Mas um
26 João com pedigree. Ser filho de um conhecido da
27 família, ser neto de alguém cujo nome estaria numa
28 placa de bronze em alguma parede de empresa.
29 Eu me arrepiava a cada vez que ouvia a sentença:
30 "Fulana é gentinha". E a análise crítica vinha com a
31 benevolência de quem não tinha o intuito de ofender.
32 "Coitada da Fulana, não era culpa dela."
33 Até o gênio Millôr Fernandes caiu na tentação de
34 escrever que quem gostava de viajar era gentinha, e
35 entendi que ele estava fazendo uma piada (ruim) sobre
36 o turista que não busca conhecimento e imersão, e sim
37 que percorre 10 países em uma semana, como se
38 todos tivessem oportunidade de voltar à Europa várias
39 vezes numa vida; e assim a palavra foi expandindo
40 seus significados e estigmatizando meio mundo: quem
41 dança com os braços para cima, quem coloca gelo na
42 taça de vinho, quem fala "gratidão" e mais uma lista
43 interminável de pecadilhos.
44 É só dar um rolê pelas redes sociais e você vai
45 descobrir aquilo que também torna você gentinha
46 — mesmo que, entre "nós", estigmas não colem, entra
47 tudo para a caixa das excentricidades.
48 O ótimo livro da Tati não usa esta palavra
49 medonha nem uma única vez. Ninguém mais usa,
50 espero. A Odete Roitman versão 2025 talvez a
51 desenterre, e pagará mico, pois está vindo de um
52 passado em que adorávamos odiar os esnobes —
53 hoje, os desprezamos, o que é muito mais letal.
54 Que os humilhantes diminutivos desapareçam, e
55 viva a Tati, que escreveu um livraço.
Autora: Martha Medeiros.
Relativamente a aspectos morfológicos de palavras do texto, analise as assertivas que seguem:
I. O sublinhado em desonesto (/.2) é um prefixo e indica negação ou oposição ao sentido da palavra “honesto”.
Il. As palavras interminável (/.43) e indiscutível (1.23) são formadas por derivação parassintética, considerando a presença simultânea de um prefixo e um sufixo.
Ill. Nas palavras leitores (/.4) e conhecimento (/.36) o sublinhado é o radical; na palavra escrever (l.34), o sublinhado é a vogal temática.
IV. Na palavra arrepiava (l.29), o sublinhado constitui a desinência verbal indicativa do pretérito perfeito do indicativo.
Das assertivas, NÃO se pode afirmar que: