Os dragões
Os primeiros dragões que apareceram na cidade muito sofreram com o atraso dos nossos costumes. Receberam precários ensinamentos e a sua formação moral ficou irremediavelmente comprometida pelas absurdas discussões surgidas com a chegada deles
ao lugar.
Poucos souberam compreendê-los e a ignorância geral fez que, antes de iniciada a sua educação, nos perdêssemos em contraditórias suposições sobre o país e a raça a que poderiam pertencer.
A controvérsia inicial foi desencadeada pelo vigário. Convencido de que eles, apesar da aparência dócil e meiga, não passavam de enviados do demônio, não me permitiu educá-los. Ordenou que fossem encerrados em uma casa velha, previamente exorcismada, onde ninguém poderia penetrar. Ao se arrepender de seu erro, a polêmica já se alastrara e o velho gramático negava-lhes a qualidade de dragões, “coisa asiática, de importação europeia”. Um leitor de jornais, com vagas ideias científicas e um curso ginasial feito pelo meio, falava em monstros antediluvianos. O povo benzia-se, mencionando mulas sem cabeça, lobisomens.
Apenas as crianças, que brincavam furtivamente com os nossos hóspedes, sabiam que os novos companheiros eram simples dragões.
Entretanto, elas não foram ouvidas.
Desejando encerrar a discussão, que se avolumava sem alcançar objetivos práticos, o padre firmou uma tese: os dragões receberiam nomes na pia batismal e seriam alfabetizados.
Quando, subtraídos ao abandono em que se encontravam, me foram entregues para serem educados, compreendi a extensão da minha responsabilidade. Na maioria, tinham contraído moléstias desconhecidas e, em consequência, diversos vieram a falecer. Dois sobreviveram, infelizmente os mais corrompidos.
No entanto, eu acreditava na possibilidade de reeducá-los e superar a descrença de todos quanto ao sucesso da minha missão.
Murilo Rubião. Os dragões. In: Contos reunidos. São Paulo: Ática, 1999 (com adaptações).
Pode-se estabelecer uma analogia entre os fatos narrados no trecho do conto Os Dragões apresentado acima e o processo de colonização do Brasil e, em especial, do indígena pelo europeu. O referido conto pertence ao gênero literário do fantástico. Nas obras que pertencem a esse gênero literário, motivações absurdas e irreais convivem com motivações realistas, verossímeis. Considerando o texto e essas informações, julgue o item.
Da perspectiva do narrador do texto, a visão das crianças a respeito dos dragões estava equivocada, assim como a dos adultos.