Os moradores do casarão
“(...)
1º Consultando o relógio de parece, que bate as horas num gemer de ferros, ela chama uma das pretas, para que lhe traga a chaleira com água quente. Toma banho dentro da bacia no quarto, cujos tacos já estão podres. Demora-se sentada no banco de madeira com medo da corrente de ar, os cabelos soltos e os ombros protegidos pela toalha.
2º A única amiga que a visita diz que a vida dela dá um romance. O casarão. A posição social de outrora. A educação dela: o piano, a aula particular de francês, o curso de pintura com irmã Honorine. Tudo se foi acabando. Os mortos são retratos no alto das paredes. Galeria de retratos, o do pai, imponente, o cabelo partido ao meio, certa ironia nos olhos, ao tempo em que foi secretário de estado e diretor do grande hospital. Foi por esse tempo que ela se casou com o bacharel recente. As tias fizeram oposição forte. Aquelas tias magras, de nervuras nos pescoços, as blusas de colarinho de renda, os bandos. A mais renitente delas era a tia Matilda. A sobrinha merecia coisa melhor, homem já projetado na vida, .......... carreira feita, que a família era nobre, quisessem ou não: vinha de boa cepa portuguesa, com barão na origem. O moço era filho de comerciante, com pequena loja de tecidos:
3º – e um menino! Em começo ...... vida.
4º Mas casaram. Foi decidido que ficassem no casarão, que dava para todos, e ninguém queria separar-se de Violeta, que tinha muitas mães, todas mandando nela. Violeta, governada, sem vontade própria, como se ainda fosse menina, ouvindo uma e outra:
5º – Estou bem com este vestido?
6º A nervura das tias:
7º – Horrível! Ponha o de organdi.
8º Ela voltava ao grande quarto, de forro alto, e mudava de roupa ..... frente do marido, marginalizado e em silêncio. Concessão maior só do pai, que era meio boêmio, apreciava uma roda de cerveja e de política. O pai soltava gargalhada na cadeira de balanço e garantia ao genro que aquelas velhas, e a própria mulher dele eram doidas.
9º A pressão. O reparo para qualquer deslize tolo ou gafe:
10 – Filho de comerciante.
11 E Violeta, que nunca teve filhos, engordava, lambia os dedos e os beiços untados de manteiga. Muitas banha, preguiça de sair de casa, uma ou outra nota no piano de cauda, com o jarro de flores, onde as moscas dormiam e cagavam.
12 Veio o desquite. O marido mudou-se para São Paulo. Fez carreira brilhante, é advogado de prestígio e, faz muito tempo, vive com a outra. Mas fixou pensão para a mulher e escrevia-lhe, talvez por pena dela: a gordura disforme. Foram cartas que raramente recebeu, e uma ou outra que ela própria tivesse escrito, tia Matilda, a renitente, tomava do jardineiro, lia e rasgava.
13 Quando essa tia morreu, porque afinal todos morreram, Violeta encontrou no quarto dela dentro da gaveta da cômoda, lá no fundo, algumas dessas cartas do marido, amarradas com o fitilho. Trancou-se, leuas à luz do abajur e chorou.
14 O casarão, com a torre, é ninho de morcegos, que voejam na tarde. Tudo é silêncio. O gradil do muro, enferrujado. Secou a fonte, onde o vento rodopia folhas mortas. De resistente apenas a hera, que sobe pelas velhas paredes, uma, ou outra vez aguada por Seu Vicente, jardineiro, ou pela preta mais nova, também cria da família.
MOREIRA CAMPOS, José Maria. Dizem que os cães veem coisas. Fortaleza: Edições UFC, 1987.
Em “Mas fixou pensão para a mulher...” (parágrafo 13) o elemento coesivo “mas” poderia ser substituído, sem prejuízo algum para a frase por qualquer um dos listados abaixo, exceto: