A questão abaixo referem-se ao texto abaixo.
Caetés - Capítulo 6
Graciliano Ramos
[...]
Dedicava-me às minhas ocupações singelas — e as ideias esvoaçavam em redor da Marta Varejão.
Realmente não era feia, com aquele rostinho moreno, grandes olhos pretos, boca vermelha de beiços carnudos, cabelos tenebrosos, mãos de mulher que vive a rezar. E alta, airosa, simpática, sim senhor, ótima fêmea. Se ela me quisesse, eu não tinha razão para considerar-me infeliz.
Queria. Na segunda-feira do carnaval, defronte do cinema, fora muito amável comigo. Olhadelas, sorrisos, um provérbio embaraçado, em francês. Aquilo prometia. Estava acabado, ia atirar-me a ela, como diz o Pinheiro. E se a D. Engrácia lhe deixasse a fortuna, bom casamento, negócio magnífico. Não que me preocupe exclusivamente com o dinheiro, pois se Marta fosse vesga e coxa, não a aceitaria por preço nenhum. Mas era bonita, e os bens da viúva davam-lhe encantos que a princípio eu não tinha descoberto.
Tocava piano. Naquele momento reconheci no piano um caminho seguro para a perfeição. Falava francês. Não havia certamente exercício mais honesto que falar francês, língua admirável. Fazia flores de parafina. Compreendi que as flores de parafina eram na realidade os únicos objetos úteis. O resto não valia nada.
Não seria difícil travar na igreja um namoro com ela, na missa das sete, e mandar-lhe, por intermédio de Casimira, umas cartas cheias de inflamações alambicadas, versos de Olavo Bilac e frases estrangeiras, dessas que vêm nas folhas cor-de-rosa do pequeno Larousse. Talvez, com algum trabalho, conseguisse completar para ela um soneto que andei compondo aos quinze anos e que teria saído bom se não emperrasse no fim. Depois obteria umas entrevistas à noite, à janela, e, conversa puxa conversa, pregava-lhe, ao cabo de uma semana, meia dúzia de beijos. Ficávamos noivos, casávamos, D. Engrácia morria.
Imaginei-me proprietário, vendendo tudo, arredondando aí uns quinhentos contos, indo viver no Rio de Janeiro com Marta, entre romances franceses, papéis de música e flores de parafina. Onde iria morar? Na Tijuca, em Santa Teresa, ou em Copacabana, um dos bairros que vi nos jornais. […]
Caetés.
Uma fina ironia se manifesta em vários momentos do texto, ressaltando-se um jogo de palavras em que se diz o contrário do que se pretende dizer. Considerando isso, observe as seguintes passagens do texto:
I- “Mas era bonita, e os bens da viúva davam-lhe encantos que a princípio eu não tinha descoberto.”
II- “Fazia flores de parafina. Compreendi que as flores de parafina eram na realidade os únicos objetos úteis.”
III- “Talvez, com algum trabalho, conseguisse completar para ela um soneto que andei compondo aos quinze anos.”
IV- “Onde iria morar? Na Tijuca, em Santa Teresa, ou em Copacabana, um dos bairros que vi no jornal.”
Há ironia somente em