TEXTO: A POLÍTICA DA HUMANIDADE
Certos ecologistas defendem a necessidade de um decrescimento. E é verdade, é preciso que haja um decrescimento das energias poluentes, dos produtos totalmente superficiais, de valor mitológico e ilusório, que prometem a saúde, a felicidade, a juventude, a sedução etc.
E preciso que decresça a intoxicação consumista que assola parte da população e, em contrapartida, que cresçam as possibilidades de consumo de outra parte sem acesso a bens elementares. É preciso combinar crescimento e decrescimento, ou seja, O que deve crescer com o que deve decrescer —- e o que deve crescer é uma economia verde, de energia limpa, uma economia que transforma as cidades, que as deixa saudáveis e humanizadas.
Portanto, é preciso combinar globalização e desglobalização, desenvolvimento e envolvimento, crescimento e decrescimento — e isso, a meu ver, substituindo a palavra desenvolvimento por “política da humanidade”. Por que essa substituição? Porque o desenvolvimento é uma fórmula padrão que é aplicada a povos e culturas que já possuem suas próprias riquezas.
É um erro crer que culturas fundadas sobre a tradição oral, isto é, desprovidas da escrita, sejam reduzidas à carência, ao analfabetismo. Não, elas não conhecem o alfabeto, mas são providas de tesouros culturais milenares — e digo isso também em relação às pequenas sociedades indígenas do Brasil, principalmente da Amazônia.
Assim, uma política da humanidade é uma política que sabe fazer a simbiose entre as qualidades que se originam do Ocidente, da globalização, e as qualidades próprias às culturas tradicionais. Essas culturas possuem uma conexão, um vínculo com a natureza que nós buscamos reencontrar no mundo ocidental; elas possuem uma noção de solidariedade que nós já perdemos.
Num conjunto, uma política da humanidade seria uma política capaz de efetuar, em cada país, um reencontro entre O melhor de sua própria cultura e das culturas estrangeiras. A ideia de uma política da humanidade é a de uma política que une O melhor do desenvolvimento, mas, repito, que faz essa simbiose e que respeita as qualidades e os valores de diferentes culturas.
Edgar Morin
Adaptado de nttps://Awww fronteiras.com/artigos/21 -
ideias-edgar-morin-e-a-politica-da-numanidade,
07/12/2017.
Um recurso produtivo na argumentação feita no texto é o emprego de palavras em oposição, a partir do uso dos prefixos “des” / “de”.
Não se trata de um exemplo desse recurso o seguinte par de palavras: