Magna Concursos
1934325 Ano: 2020
Disciplina: Português
Banca: FUNDATEC
Orgão: Pref. Frederico Westphalen-RS
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Quando o mundo de fora passa a existir dentro de nós

Quero falar de sentimentos contraditórios, até porque talvez todos os sentimentos tragam em si lados opositores. Particularmente, nunca fui uma pessoa cem por cento caseira, ou obsecada em passar o tempo fora do lar. Sempre precisei de um certo equilíbrio entre ficar no meu cantinho e explorar o mundo exterior. Contraditório? Provavelmente. E, nestes tempos de voltar para o casulo em período integral, o que mais tenho feito – além de aspirar e esfregar cantos até então desconhecidos da minha casa –, tenho refletido bastante. Lembrei-me de uma ocasião em que, por um motivo de doença, tive de ficar em casa por dez dias, sem sair mesmo.Fui acometida por uma crise de labirintite, causada por uma bactéria do mar que se alojou no meu ouvido direito. Ficar quieta, naquela situação, não era uma escolha, era uma imposição do meu corpo que havia perdido o eixo de equilíbrio. Ficar em pé, ou mesmo mover a cabeça, eram um enorme desafio, posto que qualquer movimento me dava a sensação de estar em um barquinho numa tempestade em alto-mar. Vendo-me sem escolha, aquietei-me. Nada de ler, ou desenhar, ou pintar, ou bordar, ou fazer crochê. Tive de me contentar em ouvir música ou notícias pelo rádio; aprendi a relembrar histórias reais ou fictícias e conjurar filmes inteiros em minha imaginação; aprendi a meditar; fazia listas mentais de palavras em ordem alfabética; redecorava cômodos dentro da minha cabeça.

Aprendi com uma experiência bastante didática, a partir da qual compreendi o quanto somos vulneráveis e temos pouco controle sobre o que pode entrar em nossos corpos, sem nenhum tipo de convite. Bem, passados os dez dias, tenho viva na memória a sensação impactante que foi sair de casa pela primeira vez. Tudo parecia muito diferente, como se eu tivesse dormido por anos. Achei o mundo lá fora excessivamente ruidoso, iluminado e agressivo. Lembro-me de ter sentido até um desconforto físico, uma mistura de falta de ar com taquicardia. Precisei de tempo para me readaptar ao ritmo externo, depois de tanto tempo voltada para dentro de mim.Enquanto eu funcionava em câmera lenta, o mundo parecia acelerado por demais. Aos poucos,no entanto, o estranhamento foi passando. O mundo não se alterou por minha causa, mas eu tive de reaprender a me encaixar no seu ritmo.

Hoje, penso no quanto as nossas experiências pré-gressas são valiosos instrumentos de validação da nossa passagem por este mundo. Penso no quanto as memórias de momentos vividos são importantes para evocar a presença de pessoas queridas. Reflito sobre a importância dos espaços e dos tempos experiencia dos ou negligenciados na correria dos dias, congelados naquele tempo em que nunca havíamos ouvido falar de Covid-19. Hoje, além de querer falar de sentimentos contraditórios, quero também lhe contar que tenho visto, aqui da minha janela – real e virtual –, que o mundo está se transformando lá fora enquanto nos recolhemos. Quero lhe falar que tenho visto gente prestar sua ajuda a pessoas estranhas, distantes, desconhecidas.Também tenho visto gente que, endurecida em suas crenças cristalizadas, recusa-se a ver que o mundo exige de nós uma mudança de paradigmas. O planeta, saturado de nós, está nos dando a oportunidade de ressignificarmos nossa relação com o outro, com o espaço que ocupamos, com o que é essencial, com a nossa missão no mundo, com a nossa vulnerabilidade, com o dinheiro-papel (a popular grana), com o tempo, com a vida e o fim dela.

O mundo não será mais o mesmo depois dessa pandemia. Nós também não seremos mais os mesmos. E eu torço para que, quando tudo tiver passado, possamos dizer: “eu fiz a minha parte, entendi que é preciso que me recolha, que eu lute pela vida dos meus irmãos aqui na terra. Eu compreendi que, se cada um renunciar que em excesso, não há deter nenhum de nós sentindo fome, frio ou medo”. Em minha imaginação e em meu peito, eu conjuro uma humanidade que aprendeu – ainda que tenha sido de modo forçado – que não existe o outro. Somos todos um único organismo vivo. Quando um de nós perece, seja por falta de recursos materiais ou por irresponsabilidade, um pedacinho de nós desaparece junto com ele.

(Disponível em: https://www.contioutra.com/quando-o-mundo-de-fora-passa-a-existir-dentro-de-nos/ – texto adaptado especialmente para esta prova).

Quanto à grafia de palavras situadas no texto, avalie as seguintes afirmações:

I. “obsecada” está grafada incorretamente, pois a grafia correta é “obcecada”.

II. “labirintite” está grafada corretamente.

III. “pré-gressas” está grafada corretamente.

IV. “ressignificarmos” está grafada incorretamente, pois a grafia correta é “resignificarmos”.

Quais estão corretas?

 

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