TEXTO – MARCUSCHI, A PESSOA “QUE ME ENSINOU MUITO DO QUE AINDA VOU APRENDER” (Marcos Bagno)
Quando comecei a estudar na Universidade Federal de Pernambuco, quase trinta anos atrás, uma das primeiras disciplinas que cursei era ministrada por Luiz Antônio Marcuschi. Foi uma dessas pouquíssimas experiências que representam um ponto de transformação em nossas vidas e que nos marcam definitivamente. A partir dali, procurei me matricular em todos os cursos que Marcuschi oferecia, de modo que ele foi meu professor em todos os semestres da minha graduação em Letras e também em meu mestrado em linguística. Eu dizia aos colegas que, se ele oferecesse aulas de corte e costura ou de culinária tailandesa, eu estaria sempre na primeira fila. Isso porque, em cada encontro, Marcuschi nos fazia percorrer as principais trilhas do pensamento filosófico ocidental, de Platão a Wittgenstein, com passagens por santo Agostinho, Leibniz e Frege, e paradas obrigatórias nas grandes teorias da linguística.
Uma colega me confessou, certa vez, que saía daquelas aulas com dor de cabeça, enquanto outra desejava montar uma bilheteria e cobrar ingresso para o que lhe pareciam verdadeiros espetáculos de erudição. Mas era, na verdade, uma prática de ensino que não se resumia à exibição pura e simples de conhecimento para subjugar os estudantes, para produzir inveja ou temor, como se dá com melancólica frequência em nossos meios acadêmicos. Uma prática que outro ex-aluno dele definiu como generosidade intelectual. Porque Marcuschi compartilhava suas fontes com absoluta prodigalidade, jamais escondia para seu uso exclusivo os segredos do acesso à informação.
Em todas as conferências que dava, o gesto final era sempre o mesmo: entregava as páginas com o texto que tinha acabado de ler, para que as pessoas fizessem cópias à vontade, sem nenhuma restrição, sem nada pedir em troca.
Eram textos em incessante construção, que ele poderia até eventualmente reapresentar em outra ocasião, já mais amadurecidos, mais enriquecidos com novas reflexões, novos resultados, novas reformulações. Por isso, decerto, ele talvez tenha publicado menos do que gostaríamos, pois era movido por essa insatisfação compulsiva que leva os grandes pensadores a exigirem sempre mais de si mesmos.
Ainda assim, foi o principal introdutor, nos meios científicos brasileiros, de uma série de teorias linguísticas que, se hoje têm ampla difusão entre nós, é precisamente graças a ele: análise da conversação, linguística textual, pragmática linguística, relações fala/escrita, linguística cognitiva... Marcuschi era inflexível quanto à sua recusa de qualquer teoria sobre a linguagem que desconsiderasse a atividade humana, a interação social, a inevitabilidade de incluir o falante e seus interlocutores na análise de toda e qualquer manifestação verbal oral ou escrita. Algo que aprendi com ele e que repito a todo momento é que a linguagem é um trabalho efetuado pelas pessoas em interação social. Não se trata, portanto, de mero uso, como se a língua fosse uma caixa de ferramentas: trata-se de ação. Para ele, o formalismo paroxístico da linguística chomskiana, por exemplo, era nada menos do que um “escândalo científico”, conforme escreveu certa vez.
Sei que todas as pessoas que, como eu, fomos suas alunas e alunos e tivemos o privilégio incalculável de conviver com ele, dentro e fora de sala de aula, vamos conservar a influência decisiva implantada em nós por um homem que viveu exclusivamente para o estudo e para a construção do conhecimento. Dono de uma franqueza absoluta, sem meias palavras e sem concessões, enunciava suas opiniões e seus ensinamentos num incontornável sotaque gaúcho que, até hoje, ecoa em nossos ouvidos como o traço distintivo desse intelectual como poucos que o Brasil tem produzido. Por isso, na dedicatória que lhe fiz num dos meus livros, escrevi que Marcuschi é a pessoa “que me ensinou muito do que ainda vou aprender”.
Disponível em: http://www.parabolaeditorial.com.br/blog/entry/luiz-antonio-marcuschi.html/. Acesso em 2 nov. 2016
No fragmento “Porque Marcuschi compartilhava suas fontes com absoluta prodigalidade”, utilizou-se a forma correta “porque”. Também está corretamente empregada uma das quatro formas do porquê, em