COMO O MUNDO COMEÇOU
Dona Benta era uma senhora de muita leitura; além de ter uma biblioteca de várias centenas de volumes, ainda recebia, dum livreiro da capital, as novidades mais interessantes do mundo.
Uma tarde o correio trouxe-lhe a História do mundo para crianças, de V.M.Hillyer, diretor da Calvert School, de Baltimore.
Dona Benta leu o livro com cara de quem estava gostando; depois folheou e releu vários volumes da sua biblioteca que tratavam de assuntos semelhantes e disse consigo: “Bela ideia! A história do mundo é um verdadeiro romance que pode muito bem ser contado às crianças. Meninos assim da idade do Pedrinho e Narizinho estou certa de que hão de gostar e aproveitar bastante”.
E, voltando para a criançada:
Olhem, vamos ter novidades amanhã. Uma história nova que vou contar, muito comprida…
De urso que vira príncipe? - quis saber a Emilia.
Não. A história que vou contar é a história do mundo, ou universal.
Às sete horas em ponto, no dia seguinte, estavam todos reunidos na sala de jantar. Todos, menos três: Rabicó, que não queria aprender coisa nenhuma; o rinoceronte que era muito grande para caber lá dentro; e o Doutor Livingstone, que já estava outro (com esse sábio, tinha acontecido um fenômeno maravilhoso: começara a mudar de aspecto, a transformar-se em outra pessoa, até que um dia amanheceu de novo virado no velho Visconde de Sabugosa!). E foi diante do bandinho quase completo que Dona Benta começou.
Há muito, muito tempo – disse ela – há milhões e milhões de anos, não existia gente nesta Terra e, portanto não existiam casas, nem nenhuma das coisas que só existem onde há gente, como cidades, estradas de ferro, pontes, automóveis e tudo mais que se vê no mundo de hoje.
Que é que havia então? – perguntaram todos. – Animais selvagens. Ursos e lobos, pássaros e borboletas, rãs e cobras, tartarugas e peixes. Mas milhões de anos antes, nem isso havia no mundo. Apenas havia plantas.
E mais antes ainda não havia nem plantas, aposto! – gritou Pedrinho erguendo o dedo.
Isso mesmo – confirmou Dona Benta. M ais antes ainda, não havia no mundo nem gente, nem animais, nem plantas. Só havia rochas e águas. Pedra e água – só, só, só. O que não era água era pedra, e o que não era pedra era água.
E antes desse tempo, vovó?
Antes, muito antes desse tempo, não havia nada, porque não havia mundo – o nosso mundo. Havia, entretanto, estrelas no espaço, isto é, enormes massas de fogo – enormes bolas de metais derretidas, refervendo. O sol, este nosso sol de todos os dias, era uma das tais estrelas.
Mas naquele tempo o sol não se apresentava tão sossegado como o vemos hoje. Estava ainda num período de tremenda fervura, com explosões de tal violência que por várias vezes enormes espirros da sua massa de fogo se despregavam, eram arremessadas a grandes distâncias e ficavam no espaço, girando sozinhos, como se fossem outros tantos astros novos. [...]
(LOBATO, Monteiro. História do Mundo
Para as Crianças: fragmento de Como o nosso mundo começou. 6.ed. São Paulo: Brasiliense, 1994).
Monteiro Lobato, em Sítio do Pica-pau Amarelo, sua obra mais divulgada, narrava, na maior parte das vezes, as aventuras dos netos de Dona Benta: Pedrinho e Narizinho. Essas aventuras, ou eram vividas em um mundo fantástico criado pelas crianças, ou eram desencadeadas pelas histórias contadas por Dona Benta no começo da noite.
No texto, o trecho que melhor justifica a atitude de Dona Benta ao contar a história do mundo para os netos é:
Provas
Questão presente nas seguintes provas
Assistente de Alunos
50 Questões
Assistente de Biblioteca
50 Questões
Assistente Laboratório Ciências da Natureza
50 Questões
Auxiliar em Assuntos Educacionais
50 Questões