Hoje em dia não se tem respeito pela filosofia. Quando meu colega Ned Block contou ao pai, que se especializara nessa matéria, a resposta foi “Luft” — palavra iídiche que significa “ar” e também designa um sonhador sem senso prático.
Mas, longe de serem estéreis e sonhadoras, as ideias dos filósofos podem ter repercussões durante séculos. A tábula rasa e suas doutrinas acompanhantes infiltraram-se na sabedoria convencional de nossa civilização e afloraram repetidamente em lugares inesperados.
William Godwin (1756-1835), um dos fundadores da filosofia política liberal, escreveu que “as crianças são uma espécie de matéria-prima posta em nossas mãos” e suas mentes, “uma folha de papel em branco”. Até Walt Disney inspirou-se na metáfora e escreveu: “Imagino a mente de uma criança como um livro em branco”. Rousseau não poderia ter antevisto Pocahontas, o mais rematado exemplo de bom selvagem.
A alma de Rousseau parece ter sido canalizada pelo autor de um artigo recentemente publicado na página de Opiniões do Boston Globe no Dia de Ação de Graças: “Eu diria que o mundo que os nativos americanos conheciam era estável, mais feliz e menos bárbaro que nossa sociedade atual. A harmonia da comunidade era grande, pois os nativos respeitavam o que os circundava.”
Também a terceira doutrina, o “fantasma da máquina”, continua a marcar presença nos tempos modernos. Em 2001, o presidente americano anunciou que o governo não financiaria pesquisa sobre células-tronco humanas se os cientistas tivessem de destruir novos embriões para obtê-las. Essa política ele derivou de consultas não só com cientistas, mas também com filósofos e pensadores religiosos. Muitos deles alicerçaram o problema moral no “recebimento da alma”. Alguns afirmavam que esse momento ocorre na concepção. Esse argumento revelou-se decisivo. A talvez mais promissora tecnologia médica do século XXI foi decidida ponderando-se a questão moral: quando o fantasma entra na máquina?
Essas são apenas algumas impressões digitais que essas doutrinas deixaram na vida intelectual moderna.
PINKEY, Steven. Tábula rasa: a negação contemporânea
da natureza humana. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 31-33 (com adaptações).
Assinale a opção que, mantendo a coerência das ideias e a correção gramatical, representa uma reescritura do seguinte trecho do texto:
“Em 2001, o presidente americano anunciou que o governo não financiaria pesquisa sobre células-tronco humanas se os cientistas tivessem de destruir novos embriões para obtê-las.”