Eloquência singular
Mal iniciara seu discurso, o deputado embatucou:
- Senhor presidente: não sou daqueles que...
O verbo ia para o singular ou para o plural? Tudo indicava o plural. No entanto podia perfeitamente ser o singular.
- Não sou daqueles que...
Não sou daqueles que recusam... No plural soava melhor. Mas era preciso precaver-se contra essas armadilhas da linguagem - que recusa? - ele que tão facilmente caía nelas, e era logo massacrado com um aparte. Não sou daqueles que... Resolveu ganhar tempo:
-... embora perfeitamente cônscio das minhas altas responsabilidades, como representante do povo nesta Casa, não sou...
Daqueles que recusa, evidentemente. Como é que podia ter pensado no plural? Era um desses casos que os gramáticos registram nas suas questiúnculas de português: ia para o singular, não tinha dúvida. Idiotismo de linguagem, devia ser.
-... daqueles que, em momentos de extrema gravidade, como este que o Brasil atravessa...
Safara-se porque nem se lembrava do verbo que pretendia usar:
- Não sou daqueles que...
[...]
SABINO, Fernando. Para gostar de ler. São Paulo: Ática, 1979. v. 4, p. 35-6
A alternativa que associa corretamente a palavra à regra que justifica sua acentuação gráfica é: