AO CONTRÁRIO
Os ingleses fizeram a primeira revolução republicana da História, mas, sabiamente, voltaram atrás e mantiveram a monarquia, intuindo que o poder não pode governar e dar espetáculo ao mesmo tempo. Na Inglaterra, o parlamento governa e a monarquia dá o espetáculo. A sabedoria da decisão se confirmou na era dos tabloides, para a qual o parlamento tem dado sua cota de escândalos e assunto, mas nada parecidos com os fornecidos pela familia real. Pois o que são os rituais cotidianos e pecados venais de plebeus comparados com a pompa e as indiscrições de príncipes e princesas? A realeza é paga para ser o teatro do poder, uma representação do Estado como drama familiar, como sitcom, para inspirar, divertir ou indignar os súditos. Ou enternecê-los com cada novo bebê da Kate. Enquanto isso, os parlamentares governam.
No Brasil, ao contrário, somos anti-ingleses. Aqui o rei e sua família dão a sua cota de escândalo e assunto, mas o parlamento e o judiciário é que têm dado o espetáculo. Nos revelam a sua intimidade, os seus conflitos de lealdades e escrúpulos, os seus podres, as suas culpas e expiações - e seus pseudoprincipes, pseudoprincesas e maus atores - e concentram o interesse da imprensa e do público.
Já se disse que o Brasil está várias revoluções atrasado. Se nem o fim do feudalismo foi providenciado ainda, não se pode pensar em implantar o sistema inglês aqui. Na própria Inglaterra, já tem muita gente achando que a monarquia é um anacronismo condenado, cujo custo não compensa o teatro.
Compilado de Luis Fernando Veríssimo, jomal "O Estado de São Paulo", edição de 19/4/2018.
Da leitura do texto é possível concluirmos que: