LÍNGUA PORTUGUESA
TEXTO 1

Foto: Márcia Foletto/Agência O Globo
Cientistas da UFRJ descobriram como a sepse, a inflamação generalizada quase sempre deflagrada por uma infecção fora de controle, aumenta o risco de uma pessoa desenvolver o mal de Alzheimer. A descoberta é particularmente importante porque a sepse, já muito comum, se tornou ainda mais frequente com a pandemia de Covid-19, constituindo um panorama além do sofrível.
Se sabia que a sepse estava relacionada ao risco de demências, mas o estudo é o primeiro a explicar por que e como isso ocorre. Ele abre caminho para a prevenção do mal de Alzheimer, doença que permanece incurável e para a qual não existe remédio eficaz. Mas indica também que, devido à explosão de casos de sepse com a pandemia, há um enorme risco de aumento de casos de demência. Devido à relevância dos achados, o estudo foi publicado na revista Brain, Behavior and Immunity.
“Infelizmente, a sepse se tornou corriqueira na pandemia, pois acomete a grande maioria dos pacientes graves de Covid-19. Mas nosso estudo abre caminho para estratégias capazes de evitar ou reduzir o risco de mal de Alzheimer e outras doenças neurodegenerativas”, explica uma das coordenadoras do estudo, Cláudia Pinto Figueiredo, do Núcleo de Neurociências da Faculdade de Farmácia da UFRJ.
A sepse pode causar falência múltipla de órgãos e choque séptico, quando a pressão arterial cai abruptamente. É frequente em pacientes hospitalizados. É uma assassina em massa. Seu encontro com o coronavírus provocou um aumento estratosférico de mortes por Covid-19, alertam os cientistas.
O novo estudo mostrou que a sepse deixa uma espécie de “carimbo”, uma marca de risco aumentado de Alzheimer, mesmo em indivíduos que se recuperam da inflamação sem sequelas aparentes. Antes da pandemia, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a sepse causava por ano 20% das mortes no mundo, ou 11 milhões de óbitos e 48,9 milhões de casos. Quase sempre é a causa de morte por infecções. Com a Covid-19, especialistas estimam que esse número tenha disparado, pois a infecção pelo Sars-CoV-2 tem feito os casos de sepse explodirem entre pacientes que precisam de internação, em especial, os intubados em UTIs. Figueiredo frisa que a associação entre doença inflamatória grave, como sepse e Covid-19, e doenças neurodegenerativas, mostra que é necessário acompanhamento neuropsicológico desses pacientes após a alta hospitalar. “Temos uma grave questão, que precisa ser contemplada com políticas públicas de saúde”, destaca a cientista.
A sepse é uma “filha de tempestade”. É gerada por uma tempestade de citocina — substância produzida pelo sistema de defesa para debelar infecções. Em alguns casos, porém, o sistema imunológico perde o controle e o corpo acaba vítima de fogo amigo, as citocinas. Na sepse, é como se o organismo entrasse em combustão, fica todo inflamado devido à tempestade. Bombardeados, os órgãos começam a apagar. As bactérias ou vírus causadores da infecção original podem já não estar presentes. Mas o corpo continua a sofrer a inflamação. Se esta não for contida, a pessoa morre.
O grupo da UFRJ descobriu ainda que, mesmo nos curados, a tempestade não cessa sem deixar estragos. No cérebro, a sepse danifica a chamada memória imunológica. O cérebro é particularmente bem protegido pelo sistema imune. Mas se for afetado pela inflamação, as células de defesa ficam “irritadiças” e passam a reagir a qualquer coisa de forma exagerada e desproporcional. Pequenos danos que para a maioria das pessoas não teriam relevância, nos sobreviventes de sepse são verdadeiros insultos. E esses insultos custam caro. Podem levar à perda de memória e ao desenvolvimento do mal de Alzheimer, explica Figueiredo.
Num estudo com camundongos, os cientistas puderam ver o que acontece em função de pequenos acúmulos de beta-amiloide, a proteína cujas placas são características no mal de Alzheimer. Em animais sem sepse, esses “pequenos insultos” não têm impacto algum. Porém, nos animais sobreviventes de sepse, há uma resposta desequilibrada. As células de defesa que deveriam proteger os neurônios começam a atacá-los. Destroem as sinapses (comunicação de sinais nervosos). Enlouquecidas, as antigas defensoras se tornam devoradoras de memórias.
Julia Clarke, uma das coordenadoras do estudo, destaca que o trabalho mostra a importância da ciência brasileira na resolução de questões de saúde mundial. “Se não estivéssemos passando pela maior crise de financiamento da ciência e tecnologia de nossa história, o Brasil poderia ter papel pioneiro no estudo da Covid-19”, salienta Clarke.
AZEVEDO, Ana Lúcia. “Estudo da UFRJ mostra que sepse, inflamação generalizada, aumenta risco de mal de Alzheimer”.
In: O Globo/Sociedade, 25 mai. 2021. Disponível em < https://glo.bo/3bXmuxy>. Acesso em 9 de jun, com adaptações.
Leia o trecho:
“A sepse pode causar falência múltipla de órgãos e choque séptico, quando a pressão arterial cai abruptamente. É frequente em pacientes hospitalizados. É uma assassina em massa.” (4º parágrafo).
O trecho pode ser reescrito da seguinte forma, EXCETO: