Disciplina: Português
Banca: Col.Mil. Belo Horizonte
Orgão: Col.Mil. Belo Horizonte
INSTRUÇÃO: Leia atentamente o texto 2, para responder às questões de 9 a 18.
TEXTO 2
PASSARINHO ENGAIOLADO
(Rubem Alves)
1 Dentro de uma linda gaiola vivia um passarinho. De sua vida, o mínimo que se poderia dizer era
que era segura e tranquila, como seguras e tranquilas são as vidas das pessoas bem casadas e dos
funcionários públicos.
Era monótona, é verdade. Mas a monotonia é o preço que se paga pela segurança. Não há muito
5 o que fazer dentro dos limites de uma gaiola, seja ela feita de arames de ferro ou de deveres. Os sonhos
aparecem, mas logo morrem, por não haver espaço para baterem suas asas. Só fica um grande buraco na
alma, que cada um enche como pode. Assim restava ao passarinho ficar pulando de um poleiro para
outro, comer, beber, dormir e cantar. O seu canto era aluguel que pagava ao seu dono pelo gozo da
segurança da gaiola...
10 ... Ah! Se aquela maldita porta se abrisse.
Pois não é que, para surpresa sua, um dia o seu dono a esqueceu aberta.
Ele poderia agora realizar todos os seus sonhos. Estava livre, livre, livre!
Saiu. Voou para o galho mais próximo. Olhou para baixo. Puxa! Como era alto. Sentiu um pouco
de tontura. Estava acostumado com o chão da gaiola, bem pertinho. Teve medo de cair. Agachou-se no
15 galho, para ter mais firmeza. Viu uma outra árvore mais distante. Teve vontade de ir até lá. Perguntou-se
se suas asas aguentariam. Elas não estavam acostumadas. O melhor seria não abusar, logo no primeiro
dia. Agarrou-se mais firmemente ainda. Nesse momento, um insetinho passou voando bem na frente de
seu bico. Chegara a hora. Esticou o pescoço o mais que pôde, mas o insetinho não era bobo. Sumiu
mostrando a língua.
20 – Ei, você! – era uma passarinha – Vamos voar juntos até o quintal do vizinho. Há uma linda
pimenteira, carregadinha de pimentas vermelhas. Deliciosas. Apenas é preciso prestar atenção no gato,
que anda por lá... Só o nome gato lhe deu arrepio. Disse para a passarinha que não gostava de pimentas.
A passarinha procurou outro companheiro. Ele preferiu ficar com fome. Chegou o fim da tarde e, com
ele, a tristeza do crepúsculo. A noite se aproximava.
25 Onde iria dormir? Lembrou-se do prego amigo, na parede da cozinha, onde a sua gaiola ficava
dependurada. Teve saudades dele. Teria de dormir num galho de árvore sem proteção. Gatos sobem em
árvores? Eles enxergam no escuro? E era preciso não esquecer os gambás. E tinha de pensar nos
meninos com seus estilingues, no dia seguinte.
Tremeu de medo. Nunca imaginara que a liberdade fosse tão complicada. Somente podem gozar
30 a liberdade aqueles que têm coragem. Ele não tinha. Teve saudades da gaiola. Voltou. Felizmente a
porta ainda estava aberta.
Nesse momento chegou o dono. Vendo a porta aberta disse:
– Passarinho bobo. Não viu que a porta estava aberta. Deve estar meio cego, pois passarinho
de verdade não fica em gaiola. Gosta mesmo é de voar...
(ALVES, Rubem – Teologia do Cotidiano – São Paulo: Olho d`água, 1994)
Segundo Houaiss (HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 366.), o vocábulo crepúsculo, empregado no sentido figurado significa: “3. fig. período que antecede o fim de algo, momento em que se percebe este fim; declínio, decadência.”
O passarinho sentiu-se triste com o crepúsculo porque