Texto 01
Eu e a serra
Olho o espinhaço da serra, encaroçado de gigantescas pedras parecendo contas de um rosário a se debulharem no oratório das nuvens. A serra sempre me desafiou. Muitas vezes, tenho planejado subi-la, mas me esmaece a vontade, na perspectiva de vê-la desaparecer, depois da posse. Assim, tenho preferido encantar-me de longe, mais uma miragem de céu e terra, do que o confronto com as pedras a desfazer o milagre.
Já uma vez, tentei escalá-la. Nem fui ao meio do caminho. À medida que subia o encantamento se desmanchava em tropeços e escorregões, como se eu fosse, pouco a pouco, acordando de um sonho bom, para a aspereza da vida. De longe, é melhor, pois solto a imaginação a ver gigantes encapuzados de nuvens, mistérios de locas escuras e úmidas, algumas flores pendentes das pedras como candelabros macios da festa de Deus.
Parece mesmo que, na distância, eu e a serra comungamos maior pureza, um sem desnudar-se ao outro, no êxtase de uma secreta paixão, para o orgasmo dos olhos deslumbrados. A distância e o perto têm dissonâncias. O intocável tem algo de místico, de transcendente, até o absurdo que é a fertilidade da imaginação. De perto, tudo esmorece, esmaece, apaga-se, a luz não é a mesma, a possibilidade do estreito contato perde o encanto do inatingível. [...]
MARACAJÁ, Robério. Cerca de Varas. Campina Grande, Latus, 2014. p.165
Do enunciado “De perto, tudo esmorece, esmaece, apaga-se”, pode-se afirmar que há uma figura de linguagem, denominada: