TEXTO 2
Sobre Marias – José Luiz Fiorin
Em Alice no país das maravilhas (São Paulo: Summus, 1980, p. 192), num dado momento , o Humpty Dumpty pergunta a ela qual o seu nome.
- Meu nome é Alice, mas...
- É um nome bastante idiota - interrompeu Humpty Dumpty com impaciência - Que significa?
- Deve um nome significar alguma coisa? perguntou Alice, cheia de dúvida.
- Claro que deve - respondeu Humpty Dumpty com um risinho.
O problema que aparece nesse texto é bastante interessante, pois nos leva a indagar qual é o significado dos chamados nomes próprios. O de um nome comum não é a coisa que ele designa, mas é um conceito: por exemplo, o de árvore é "vegetal de grande porte e caule lenhoso". Essa representação contém aquilo que é comum a todos os indivíduos da espécie. Um cipreste é muito diferente de uma mangueira, mas ambos têm aquelas características existentes em todas as árvores, que compõem, assim, uma abstração que poderíamos chamar a "arvoridade". No entanto, qual é o significado de um nome próprio: Márcio, por exemplo? Márcio quer dizer "uma pessoa chamada Márcio". A circularidade é evidente: o nome próprio de pessoa designa alguém que porta esse nome. Não há uma significação geral para o termo Márcio, pois os Márcios não têm nenhuma propriedade comum. Não existe a "marcidade". Portanto, os nomes próprios indicam um ser tomado individualmente e nunca como membro de uma classe, mesmo porque ele não faz parte de nenhuma classe.
Poder-se-ia dizer que, se formos observar a origem dos antropônimos, isto é, nomes próprios de pessoa, eles sempre terão um significado preciso: por exemplo, Helena vem do grego, em que tinha o sentido de "tocha", daí a acepção de "a reluzente", "a resplandecente". Márcio provém do latim martius, "relativo a Marte, deus da guerra" e, portanto, "guerreiro, corajoso". O que ocorre é que, mesmo que sejamos capazes de encontrar um valor preciso para cada nome, quando ele assume a função de nome próprio, é dessemantizado, deixa de traduzir um dado conceito. Portanto, Alice tem razão em sua conversa com o Humpty Dumpty, um nome não deve significar nada.
No entanto, há um aspecto a ser levado em conta: se o antropônimo não denota um conceito, ele comporta uma série de conotações. Pode-se definir a conotação, sem muito rigor, como um significado que se acrescenta a outro já existente. Assim, um antropônimo indica o gênero de seu portador: homem ou mulher (há nomes que são ambíguos desse ponto de vista, Ariclenes, por exemplo); origem regional (se alguém se chama Raimundo Nonato deve ter nascido no Nordeste ou de pais nordestinos); exotismo (por exemplo, Cainã, Ceumar); simplicidade (como João, Pedro, Maria), pertencimento a uma classe social (por exemplo, Willians Reginaldo, Dorisgleide, Marinete ou nomes de artistas popularescos ou de jogadores de futebol, como Camille Vitória, Michael Jackson, Rivelino), raridade (como Vasco ou Quitéria). Há nomes religiosos (por exemplo, Maria Aparecida), imperiais (como Tereza Cristina), esnobes (por exemplo, Enzo, Luca) e assim sucessivamente.
Antigamente, os nomes das crianças eram escolhidos, basicamente, por razões de ordem religiosa (promessas, nascimento no dia de um santo) ou de continuidade de um nome existente na família, como o do pai ou do avô (e aí surgem os Filho, Neto, Júnior). Essas são ainda justificativas válidas em nossa sociedade. No entanto, a escolha dos nomes dos bebês é cada vez mais governada pelas conotações que eles veiculam.
Em 22 de outubro do ano passado, O Estado de S. Paulo publicou uma matéria mostrando os dez nomes mais utilizados em cada uma das décadas, desde 1940 (página C7). Aí se verifica que os nomes saem de moda e ganham uma conotação de "coisa velha" (por exemplo, Geraldo, Benedita, Sebastião estavam entre os dez mais escolhidos na década de 40; Bento, Jacinto, Leontina, Filomena soam a algo muito antigo), outros entram na moda e recebem uma conotação de modernidade (estamos no tempo de Gabriel (mas Miguel tem um sabor levemente arcaico), Mateus, Guilherme, Ana, Júlia, Gustavo). Leandro, Diego e Juliana foram muito populares nos anos 80. Os pais escolhem os nomes de seus filhos fundamentalmente em função das conotações que os cercam: uns querem nomes fora de moda; outros, nomes moderninhos; alguns, nomes simples; outros, nomes exóticos e assim sucessivamente.
Nos países europeus ou asiáticos, as pessoas atêm-se ao estoque tradicional de prenomes. Nos países de imigração, como o Brasil, juntaram-se todos os acervos de nomes tradicionais de todos os povos que para cá vieram. Além disso, usam-se, em nosso país, os prenomes de origem indígena: Peri, Ubirajara, Jandira, Jussara, Iracema, Jacira. Com isso, de um lado, a coleção de nomes possíveis ampliou-se muito e, de outro, criou-se uma tolerância muito grande a toda sorte de modismos e mesmo de bizarrices. Aceita-se, por exemplo, a cunhagem de prenomes formados pela combinação de sílabas do nome do pai e da mãe: Elival e Dorel tinham como pais Dorival e Elza.
Registram-se nomes como Waterloo Napoleão, Tom Mix, Zorro...
Revista Língua Portuguesa, disponível em : www.revistalínguaportuguesa.com.br, acesso em 19/09/07.
Assinale a alternativa CORRETA em relação ao texto 2: