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2438089 Ano: 2012
Disciplina: Português
Banca: UFG
Orgão: UFGD
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Cadeia

Acordou sobressaltado. Pois não estava misturando as pessoas, desatinado? Talvez fosse efeito da cachaça. Não era: tinha bebido um copo, um tanto assim, quatro dedos. Se lhe dessem tempo, contaria o que se passara.

Ouviu o falatório desconexo do bêbado, caiu numa indecisão dolorosa. Ele também dizia palavras sem sentido, conversava à toa. Mas irou-se com a comparação, deu marradas na parede. Era bruto, sim senhor, nunca havia aprendido, não sabia explicar-se. Estava preso por isso? Como era? Então mete-se um homem na cadeia porque ele não sabe falar direito? Que mal fazia a brutalidade dele? Vivia trabalhando como um escravo. Desentupia o bebedouro, consertava as cercas, curava os animais — aproveitara um casco de fazenda sem valor. Tudo em ordem, podiam ver. Tinha culpa de ser bruto? Quem tinha culpa?

Se não fosse aquilo... nem sabia. O fio da idéia cresceu, engrossou — e partiu-se. Difícil pensar. Vivia tão agarrado aos bichos... Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas em seus lugares.

O demônio daquela história entrava-lhe na cabeça e saía. Era para um cristão endoidecer. Se lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de entendê-la. Impossível, só sabia lidar com bichos.

Enfim, contanto... Seu Tomás daria informações. Fossem perguntar a ele. Homem bom, seu Tomás da bolandeira, homem aprendido. Cada qual como Deus o fez. Ele, Fabiano, era aquilo mesmo, um bruto.

O que desejava... Ah! Esquecia-se. Agora se recordava da viagem que tinha feito pelo sertão, a cair de fome. As pernas dos meninos eram finas como bilros, sinhá Vitória tropicava debaixo do baú de trens. Na beira do rio haviam comido o papagaio, que não sabia falar. Necessidade.

Fabiano também não sabia falar. Às vezes largava nomes arrevesados, por embromação. Via perfeitamente que tudo era besteira. Não podia arrumar o que tinha no interior. Se pudesse... Ah! Se pudesse, atacaria os soldados amarelos que espancam as criaturas inofensivas.

(RAMOS, G.. Vidas Secas. Disponível em: http://www labtecgc.udesc.br:8081/pgbd/bitstream/123456789/401/1/vid as%20secas%20-%20graciliano%20ramos.pdf. Acesso em 05 abr. 2012)

“A fala interior, revelada pelo discurso indireto livre, é sempre natural, e retrata importantes traços da psicologia da personagem. Pode, inclusive, ser apresentada pelo narrador com aqueles truncamentos, interrupções ou desordem de linguagem ainda não organizada para a comunicação ou a mente obtusa da personagem”. A partir dessa assertiva, assinale a alternativa que apresenta o discurso indireto livre e comprova a afirmação supracitada.

 

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