'CANTINHO DA DISCIPLINA' FUNCIONA PARA EDUCAR CRIANÇAS?
Como disciplinar as crianças é uma das grandes questões dos pais; descobertas sobre o funcionamento do cérebro colocam em xeque práticas comuns como o 'cantinho do pensamento'
Adianta colocar a criança de castigo ou, em uma versão mais suave, num "cantinho da disciplina"? Essa é uma das dúvidas mais comuns de pais e cuidadores diante da "desobediência" infantil. Defensores do "cantinho do pensamento" dizem que sim, argumentando que o método dá aos pais uma estratégia que evita a violência. Mas o conhecimento recente da neurociência coloca essa ideia em xeque, ao mostrar que o cérebro das crianças sequer tem maturidade para aprender um "bom comportamento" ou refletir sobre as regras da família durante um castigo.
Essas evidências científicas apontam que a criança só vai incorporar sentimentos negativos durante essas punições — por exemplo, ressentimento —, em vez de aprender habilidades importantes de vida e ferramentas que a ajude a controlar as próprias emoções. Ao mesmo tempo, especialistas defendem que dá, sim, para montar em casa um "cantinho" que sirva para acalmar na hora em que as tensões e as brigas escalonam.
Os cientistas descobriram que, durante toda a infância, mas sobretudo nos primeiros anos de vida, o córtex pré-frontal está imaturo. "O córtex pré-frontal está nos estágios mais rudimentares do desenvolvimento nessa idade", diz Lerner. Ou seja, do ponto de vista fisiológico, a criança ainda não é capaz de controlar a maior parte das suas reações, porque tem um controle ainda inconsistente delas. Quando é tomada por emoções difíceis, como frustração, raiva ou medo, seu corpo reage — por exemplo, "explodindo" em crises de birra.
"Ao contrário das crenças populares, crianças pequenas que não cumprem o que é pedido, perdem o controle de suas emoções ou se distraem facilmente não são 'crianças más' nem estão sendo intencionalmente beligerantes ou não-cooperativas", explica o Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Harvard. Ela cita uma das famosas pesquisas em que as crianças são colocadas diante de uma guloseima — e perguntadas se preferem comê-la imediatamente ou esperar para receber um segundo doce. Embora, nesse estudo, muitas crianças de 3 anos tenham reconhecido que o melhor seria esperar para ter dois doces, prevaleceu na maioria delas o impulso de comer a única guloseima à sua frente.
"Claramente, elas sabem, pela lógica, que é melhor esperar, mas saber não é suficiente" para seu cérebro em formação, concluem os estudiosos. "Sabemos que é só pelos 20 e poucos anos que essa parte do cérebro fica plenamente formada, o que também explica por que adolescentes são famosos por nem sempre tomarem as melhores decisões ou terem grande dificuldade em controlar seus impulsos", conclui Lerner. Mas, mesmo tendo isso em mente, como lidar com os momentos em que as crianças perdem o controle ou se recusam a cumprir tarefas do dia a dia?
Nessa linha, espaços da casa ou da escola podem ser vistos como locais não de punição a um comportamento, mas de regulação emocional em momentos de estresse. Dessa ideia surgiram os "cantinhos da calma". "São espaços que ajudam a acalmar, com livros e objetos de conforto (almofadas, brinquedos que possam ser jogados ou apertados)", explica Lerner. A proposta é que a criança tope, voluntariamente, se acalmar ali — caso contrário, volta a ser uma medida punitiva. Mesmo assim, nem sempre dá certo. "Tudo isso é maravilhoso quando funciona. Porque pode acontecer de a criança se levantar do cantinho do aconchego e correr freneticamente, talvez em condições inseguras, jogando objetos pela casa, arranhando, batendo, cuspindo — coisas que observo diariamente nos meus encontros com famílias", afirma Lerner. "É aí que os pais ficam confusos. O que você faz quando seu filho fica tão fora de controle que se torna destrutivo? É hora de repensar. Porque no fim das contas, não temos controle sobre as crianças, apenas controlamos a situação." Nesses casos, uma opção limite indicada por Lerner é manter a criança em um local fechado e seguro da casa, até ela se acalmar, enquanto os pais se fazem presentes de um modo calmo.
Adaptado. Fonte: BBC BRASIL, disponível em [https://www.bbc.com/portuguese/geral-62423859], publicado em 06.08.2022 e consultado em 08.08.2022.
"Nessa linha, espaços da casa ou da escola podem ser vistos como locais não de punição a um comportamento, mas de regulação emocional em momentos de estresse."
No trecho acima, os termos grifados pertencem, respectivamente, às seguintes classes gramaticais: