Texto IV
LÍNGUA PORTUGUESA VIRA CAMPO DE BATALHA IDEOLÓGICA
Adoção de novas palavras – e exclusão de antigas – buscam refletir mudanças na sociedade
RIO – Não chega a ser como no futebol, em que o Brasil tem “200 milhões de técnicos”. Mas, de
uns tempos para cá, há um novíssimo time de dicionaristas emergindo por aí. São militantes de
várias causas que estão indo a campo defender a inclusão de novas palavras – assim como a
exclusão de antigos termos – na língua portuguesa. Resultado: sobram bandeiras e dúvidas. Vale o
5 gênero neutro de “alunxs” testado no Colégio Pedro II? Pode o neologismo periférico de “rolézim”?
Cai “mulata” por seu histórico racista?
Nossa língua é uma metamorfose ambulante. Mas quem vai dizer se esse empurrão ideológico
altera a marcha natural do idioma? Você – o usuário dele.
Um dos mais respeitados linguistas do país, Sírio Possenti lembra que o idioma é “um campo de
10 disputa”. Professor da Unicamp, ele explica que é natural que grupos levem suas reivindicações
para o campo semântico: é a luta identitária nos dicionários.
— Todo grupo escolhe palavras para si – diz Possenti. – Quando o Movimento Sem Terra entra em
uma fazenda, diz que é “ocupação”. Para o fazendeiro, é “invasão”.
O linguista, também autor de “Por que (não) ensinar gramática na escola”, defende o que chama de
15 descriminalização do português falado:
— Quando o apresentador de telejornal lê a notícia, ele diz: “os juros vão subir”, pronunciando bem o
R. Logo depois, informalmente, como se costuma falar, pergunta à moça do tempo: “vai chovê?”.
Como se não houvesse R, porque o R do infinitivo caiu faz tempo, deveria ser a regra.
Quando o assunto é militância, há mais questões envolvidas, naturalmente. Stephanie Ribeiro,
20 ativista negra e autora do texto “Tire o racismo do seu vocabulário”, postado no site “Modefica” e
viralizado pelas redes sociais, defende mudanças nas palavras por uma questão de
“posicionamento” e refuta críticos que chamam o movimento de “ditadura linguística”:
— Se você não é da minoria atingida, é comum que ache exagero. As pessoas estranham quando
peço que não me chamem de “mulata” ou “morena”, e sim pelo meu nome. Muita gente não está
25 pronta para rever esse vocabulário.
[...]
O escritor e pesquisador do assunto Sérgio Rodrigues, autor de “Viva a língua brasileira”, considera
todas as lutas linguísticas válidas. E faz uma autocrítica:
— No mínimo, isso chama atenção para uma causa: todos têm opinião sobre como as pessoas
falam. Quando comecei a escrever sobre língua, cheguei a dizer que era inócuo lutar contra o termo
30 “homossexualismo” por remeter à doença. Eu estava errado. O ativismo nos convenceu de que
“homossexualidade” é o certo. Ótimo.
Rodrigues acha que nossos dicionários demoram um pouco para perceber essas mudanças.
Exemplo: no “Aurélio”, no “Houaiss” e no “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa”, “poeta”
aparece como substantivo masculino, mesmo que hoje seja usado para todos os gêneros — e
35 “poetisa” seja até encarado como uma palavra depreciativa.
Diretor do Instituto Antônio Houaiss e coautor do dicionário, Mauro Villar explica que novas palavras
chegam ao dicionário a partir da leitura de obras de ficção, jornais, revistas, teses acadêmicas e “até
bulas de remédio, tudo o que se possa ler e anotar”.
— Mais tarde, julgamos o que deverá ser incluído e o que vai para a “geladeira” — diz Villar. —
40 Jogamos também com o acaso, tentando imaginar se tal expressão passará a fazer parte da língua
ou desaparecerá. [...]
Texto de Emiliano Urbim - Disponível em: www.oglobo.globo.com
Acesso em: 5 ago. 2019.
De acordo com o texto IV, responda às questões de números 45 a 53. |
No trecho “Exemplo: no ‘Aurélio’, no ‘Houaiss’ e no ‘Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa’, ‘poeta’ aparece como substantivo masculino, mesmo que hoje seja usado para todos os gêneros – e ‘poetisa’ seja até encarado como uma palavra depreciativa.” (l. 33 - 35), Sérgio Rodrigues aponta o emprego da palavra poeta como um substantivo comum de dois gêneros. Outro substantivo que pode ser classificado da mesma forma é: