Nos nossos primeiros anos de vida, nossos pais e cuidadores não se importam muito com o que fazemos. A nossa existência, por si só, é o bastante para nos garantir afeto incondicional. Arrotamos durante a refeição, gritamos com toda a força, não ganhamos dinheiro algum e não temos amigos importantes – ainda assim somos valorizados.
Mas chegar à idade adulta significa assumir nosso lugar ao sol em um mundo dominado por pessoas indiferentes e esnobes, cujoI comportamento está no cerne da ansiedade causada pelo desejo por status.I Embora alguns amigos venham a prometer não nos rejeitar mesmo que nos desgracemos e declaremos falência (e, dependendo do dia, podemos até acreditar neles), é devido a atenções esparsas dos esnobes que nos mantemos.
Estar em companhia de esnobes pode nos enraivecer e irritar, porque percebemos que aquilo que somos verdadeiramente – isto é, o que somos sem levar em conta o nosso status – exerce pouquíssima influência no comportamento deles em relação a nós. Podemos ser dotados da sabedoria de Salomão e da engenhosidade e da inteligência de Ulisses, mas, seII não ostentarmos emblemas socialmente reconhecidos de nossas qualidades,II nossa existência continuará sendo insignificante para os esnobes.
Essa natureza condicional talvez nos seja dolorosa porque o amor adulto conserva, como protótipo, o amor incondicional dos pais pelos filhos. Nossas primeiras experiências de amor provêm de cuidados que recebemos em uma condição desprotegida, vulnerável. Por definição, os bebês não podem pagar com recompensas mundanas a quem lhes presta cuidados. Se são amados e cuidados é pelo que são – a identidade em seu estado mais despido, mais despojado. Eles são amados por seu caráter descontrolado, barulhento e teimoso – ou apesar dele.
É só quando amadurecemos que a afeição começa a depender de realização: ser educado e bem-sucedido durante e após os anos escolares, adquirir distinção e prestígio. Tais esforços podem atrair o interesse dos outros, mas o anseio emocional subjacente não é tanto o de deslumbrar as pessoas com os nossos atos, mas sim o de reviver a sensação de receber mimos constantes e indiscriminados, como quando empilhávamos tijolinhos de madeira no chão da cozinha e tínhamos um corpo rechonchudo e olhos grandes e confiantes.
É indício desse anseio que só o adulador mais inepto admitiria basear uma amizade em sua atração pelo poder ou pela fama. Esses atrativos pareceriam motivos insultantes e efêmeros para sermos convidados para um almoço, porque não fazem parte de nossa identidade verdadeira e irredutível. Podemos perder nossos empregos e ter nossa influência destruída sem que pereçamos ou que nossa necessidade de afeição, originadaIII na infância,III seja extinta. Aduladores talentosos, portanto, sabem que devem sugerir que estão interessados estritamente na parte sem status de sua presa, que o carro oficial, os perfis nos jornais ou o cargo de diretoria da empresa são características que apenas coincidem com uma ligação profunda e pura.
Adaptado de: Botton, Alain de. Desejo de status. Porto Alegre: L&PM, 2021.
Considere os pares de sinais de pontuação referidos a seguir.
I. A vírgula imediatamente anterior a cujo e o ponto final imediatamente posterior a status.
II. A vírgula imediatamente anterior a se e a vírgula imediatamente posterior a qualidades.
III. A vírgula imediatamente anterior a originada e a vírgula imediatamente posterior a infância.
Quais desses pares de sinais delimitam internamente termos com valor explicativo?