Disciplina: Português
Banca: IDECAN
Orgão: Pref. São Gonçalo do Rio Abaixo-MG
O que é, mesmo, respeito?
Um processo judicial chamou a atenção do país, provocando boa dose de polêmica. Um juiz de Niterói, Rio deJaneiro, descontente com a forma pela qual era tratado pelos empregados do seu condomínio, entrou na Justiça comuma ação em que exigia ser chamado de “senhor” ou “doutor”. E, de fato, obteve uma liminar que reconhecia suaqueixa como procedente.
Não se trata de caso único. Muitas pessoas têm queixas similares: não gostam do “você” ou do “meu bem”, formasde tratamento de uso cada vez mais disseminado no Brasil. O que, aliás, corresponde a uma mudança cultural. Num paísque, durante a maior parte de sua história, admitiu a escravidão como fato normal e considerou indígenas criaturasinferiores (no período colonial discutia-se se os índios tinham alma), o servilismo era a regra. Escravos, empregados eaté os filhos tinham de se dirigir aos donos da casa chamando-os de “senhor” ou “de senhora”. Aliás, e como a gente vênas novelas de época, era este também o tratamento entre marido e mulher. “Doutor” era um título honorífico,sobretudo porque poucos concluíam a universidade: o analfabetismo era a regra. Até mesmo o coloquial “você” temorigem reverente: é a forma simplificada de vossa mercê – e quando se diz que uma pessoa está à mercê de alguém,estamos, inevitavelmente, falando de submissão. Quanto ao “tu”, só podia ser usado em relações íntimas; “tutear”,tratar alguém por tu, sempre foi sinônimo de grosseria. Notem que o inglês simplifica tudo isso com o “you”, que podeser usado para qualquer um, desde o amigo até o presidente.
As formas de tratamento mudaram no Brasil. E mudaram por razões práticas, mudaram porque se alterou aconjuntura social e cultural: doutores não nos faltam, e aqueles que têm doutorado já começam a questionar o uso dotítulo por simples graduados em universidades. Mas as coisas mudaram, sobretudo, porque o país ficou maisdemocrático, mais igualitário. O juiz de Niterói tem direito a um tratamento respeitoso; aliás, qualquer pessoa temdireito a isso. A pergunta é se “doutor”, por exemplo, significa respeito. Talvez respeito seja uma coisa mais profunda,um tipo de relacionamento em que os direitos do outro, não importando a posição social desse outro, sejamreconhecidos. A melhor forma de respeito não é aquela imposta de cima para baixo, de dentro para fora, aquela queimplica uma postura reverente, servil; a melhor forma de respeito é aquela que nasce de uma convicção interna, deuma forma madura de consciência: respeitamos o conhecimento, a competência, a dedicação, o valor pessoal dealguém. Quando essa motivação não existe, o tratamento pode ser até reverente, mas ocultará revolta ou deboche.“Sim, senhor” pode traduzir humildade, mas pode também ser a expressão de uma latente hostilidade.
O verdadeiro respeito nasce da democracia, nasce da igualdade. No verdadeiro respeito o clássico “Você sabe comquem está falando?” deixa de existir, como deixa de existir o carteiraço. Quando chegamos a um clima de verdadeirorespeito, a questão das formas de tratamento torna-se secundária e tão antiga como a expressão vossa mercê.
(SCLIAR, Moacyr. Do jeito que nós vivemos – Belo Horizonte: Editora Leitura, 2007.)
Analise as afirmativas a seguir.
I. A constatação de que o juiz de Niterói não é o único a questionar formas de tratamento funciona como justificativa para o posicionamento assumido pelo autor em relação ao assunto abordado.
II. Questões sociais e culturais são vistas como fator determinante de transformação em relação à prática abordada no texto como assunto principal.
III. A posição social está diretamente atrelada ao tratamento devido a cada indivíduo assim como os direitos do mesmo são dela provenientes.
Está(ão) de acordo com o texto a(s) afirmativa(s)