Não espalha
Prendemo-nos ao "eu te amo" como se fosse uma
convenção inadiável, uma etiqueta implacável. Seu
pronunciamento é uma sentença obrigatória, uma
sondagem diária da fidelidade.
Há aqueles que não saem de casa se o cônjuge
não retribui as palavrinhas mágicas.
Não sou adepto dessa birra e chantagem com
Beatriz. Que ela simplesmente me ame, sem depender
de provas, sem se ver ameaçada por testes
quantitativos.
Circula uma tirania de que precisamos falar
sempre, para que a companhia não tenha dúvidas
daquilo que sentimos.
Mas a jura não é tão importante quanto
demonstrar amor. E você pode expressar o carinho
silenciosamente, a lealdade secretamente.
Ou seja, é preferível proteger, confiar e selar a
empatia em atos de confluência a gritar votos aos
quatro ventos.
O que vale é agir amorosamente, é se preocupar
amorosamente, é se interessar pelo outro, é suprir o
seu par com atenção, é trocar a saudade pela
gentileza.
E, de repente, quem ama muito nem diz "eu te
amo", economiza no "eu te amo", porém é abundante
na prática da reciprocidade. É alguém que não se nega
a estar perto, acessível, consciente de sua influência.
Temos que observar mais o exemplo do que as
declarações: se a pessoa admira você, se a pessoa
incentiva você, se a pessoa elogia você, se a pessoa
ampara você, se a pessoa escuta você.
Esse arcabouço de comportamentos deve
prevalecer no romance. Não queira que o seu parceiro
diga a todo momento o que ele mesmo já realiza
naturalmente. É redundância.
Recordo um diálogo que vivi com a minha filha,
quando ela tinha 11 anos.
Na hora de dar boa-noite, reparei que ela estava
encabulada e arredia comigo. Tentei me aproximar.
− O que houve?
− Eu não sei se te amo. Não sei o que é amor −
ela me disse.
Não me senti mal. Não me senti desvalorizado.
Quem nunca se perguntou isso?
Há dias em que parece que você ama mais. Há
dias em que parece que você ama menos. Há dias em
que você se esquece de amar. Há dias em que você
ama em dobro.
Lembro que fiz carinho na sua cabeça, cantei "O
Leãozinho", de Caetano, e permaneci ao seu lado até
que adormecesse.
Quando jurei que ela já tinha apagado e não
estava mais me ouvindo, confidenciei:
− Amar é só gostar de ficar junto, filha.
Ela, inesperadamente, respondeu:
− Então, eu te amo, pai, mas não espalha.
Fabrício Carpinejar - Texto Adaptado
https://www.otempo.com.br/opiniao/fabriciocarpinejar/2024/11/29/nao-espalha