O viajante
Carlos Drummond de Andrade
Um dos mistérios do Natal é caberem nele tantas festas: a religiosa, a familial, a infantil, a popular e mesmo a agnóstica, dos que não apreendem o divino e entretanto o celebram. E todas essas comemorações se fazem em dois planos: o Natal exterior e o interior se interpenetram, mas não se confundem. Assistimos à festa nas ruas, nas casas, nas Igrejas, participamos dela, mas promovemos em nós outra festa, ou tentamos promovê-la, calados, até melancólicos. Será o Natal solidão em busca de companhia?
Recordo uma noite passada no estrangeiro, há dez anos, 24 de dezembro. Estávamos reunidos em torno à mesa, comendo e bebendo coisas que é de praxe comer e beber em maior quantidade, numa data em que comida e bebida deviam ter tão pouca importância e contudo a têm enorme e simbólica. Sentíamo-nos felizes: uma pequena família que reúne suas metades habitualmente separadas tem direito a isso. Havia ainda a circunstância de que a família aumentara, e não era só o menino ideal que saudávamos, era também o menino de carne e osso, bochechudo, olhos azuis, dormindo no quarto próximo. A alegria não chegava a ser ruidosa, dado o temperamento geral e a conveniência de não acordar o menino. E seria completa, se algumas lembranças não nos acudissem: pessoas que tinham morrido há muito tempo se apresentavam à lembrança, docemente importunas; recordá-las é bom e triste. Pessoas distantes, amigos, até desconhecidos, essa massa anônima que faz parte do nosso existir-em, e que lá longe, no Brasil, estaria vivendo seus diferentes natais, enquanto outra massa anônima em volta de nós se entregava aos mesmos ritos sacros e profanos.
Estávamos protegidos, solidários, unificados; contudo, estávamos também isolados de inúmeros seres, nessa concha de egoísmo que é a felicidade doméstica.
Vocabulário
apreender: entender, compreender
interpenetrar-se: penetrar reciprocamente
confundir: misturar, não distinguir
importuno: incômodo
A felicidade doméstica é uma concha de egoísmo. No contexto natalino abordado pelo autor, pode-se assim entender essa metáfora:
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