Leia o texto a seguir e responda às questões de 6 a 10.
Futebol, dizem os donos da história, é o ópio do povo. Quem vai discordar de uma tese tão grandiloquente quanto conservadora? Ninguém! Pois ela é a admissão em termos utilitaristas da descoberta de que tudo o que é humano serve para conscientizar e esconder pedaços das nossas incertas subjetividades. Desta perspectiva, o desafio seria descobrir que instituição, costume, jogo ou lei não teria nenhum “efeito colateral”: não revelaria e, ao mesmo tempo, esconderia.
Claro que a Arte que não serve para nada, serve certamente para nos preservar dessa visão utilitarista. A condição humana tem a capacidade de produzir pecados e de emitir perdões. Matamos por maldade e heroísmo, traímos por dever e patriotismo, descremos crendo fervorosamente e rezamos pedindo para que a fé chegue aos nossos instáveis corações.
O futebol é uma distração do sério, mas ele produz sua própria seriedade. Afinal, quem foi que inventou o sábado do descanso e o marcou com múltiplas obrigações? Ainda menino, aprendi que o futebol era um divertimento, mas logo vi que ele era ao mesmo tempo uma bula de excelência numa sociedade que pouco crê em si mesma. O “viralatismo” não é, como descobriram meus mestres e colegas antropólogos culturais, propriedade exclusiva do Brasil. Ele é parte de todo coletivo que, no decorrer de sua história, tem a capacidade e a dura obrigação de autoavaliar-se e de criticar seu etnocentrismo, sua crença de que é o melhor do mundo...
Neste sentido, tudo o que é humano tem início e fim, mas, no seu trajeto, possui uma densidade e uma profundidade que só Deus sabe. Somos feitos de roupagens e cada vestimenta revela uma outra fantasia de modo que nada tem um único propósito. A multifuncionalidade é parte constitutiva do humano.
Tudo isso para dizer que fiquei encantado de tanto ver futebol, pois o jogo, com seu palco verde cortado de linhas retas e curvas, dos seus protagonistas demarcados por uniformes e funções, produz uma ordem rara na vida diária. No jogo, tudo tem sentido e alvo, na vida há muito a ser explicado.
No jogo, eu sei o que se busca e o futebol é talvez o único esporte que permite tanta diversidade, surpresas e resultados, além de ser verdadeiramente relacional como diz o nome com o qual foi batizado, “foot-ball association”. É um jogo centrado na bola e a bola, como descobri num livrinho publicado em faz tempo, corre mais que todos nós...
Viva a Argentina e viva esse jogo que nos ajuda a vencer a finitude.
(DaMATTA, Roberto. O futebol e a vida. O Estado de S.Paulo. São Paulo: 21 dez. 2022. Cultura & Comportamento. C3.)
Assinale a alternativa que apresenta, corretamente, a função do parágrafo que se inicia em “Tudo isso para dizer...”, em relação às ideias expressas anteriormente.