2389838
Ano: 2010
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CEPUERJ
Orgão: UERJ
Disciplina: Literatura Brasileira e Estrangeira
Banca: CEPUERJ
Orgão: UERJ
Provas:
Araraquara, 01 de julho de 1930.
Meu querido Carlos
São três horas duma noite incrível de fazenda.
[...]
A primeira vitória do seu livro e a decisiva, que assegura o valor extraordinário e permanente dele e da sua poesia, é não dar a impressão de passadismo. Me explico. O que eu mais temia, diante da evolução rapidíssima da poética do século XX, é que os poemas de você, muitos antigos e refletindo processos de cinco, seis anos atrás ou mais, e já abandonados, produzissem mau efeito reunidos em volume. Dessem a impressão de adesismo retardatário ou de carneirismo a certos assuntos poéticos que os moços de todo o Brasil se encarregaram de vulgarizar ao excesso, abastardar com a precariedade dos jovens de 20 anos e ficaram reduzidos ao pó-de-traque. Assuntos como Recordações de Infância, Descrições rápidas haicaizadas, a temática nacional, paisagismo sensacionalístico etc. são assuntos já revelhos na poesia modernista e de todos você usa. Compreende-se: o perigo era enorme. Você discípulo de Cataguases! Sem que esta frase tenha a mínima intenção de depreciar os poetas de Cataguases, deprecia você pois Cataguases foi um fenômeno que passou. Pois isso não se deu. Nem pra mim nem pra outros pois conversei sobre com o Manuel Bandeira e o Rodrigo. Mas minha impressão e conclusão é mais valiosa que a deles porque o Manuel está muito próximo de você como sensibilidade pra poder julgar bem e o Rodrigo não faz poesia e como mero espectador está em condições de aceitar melhor manifestações diversas. Mas eu, minha poesia atual, meus atuais instintos e minhas atuais ideias de poeta são as mais distantes de tudo o que representa como poesia o livro de você. Poesia minha de agora: ou caio num lirismo absoluto, quase automático e sobrerrealista, intelectualmente incompreensível, ou melhor, paralógico, ao lado da lógica intelectual, os tais “versos de louco”, ou traio de cabo a rabo esse conceito de poesia que é o meu atual e apenas evolução drástica e incisiva de ideias expostas na Escrava e processos tentados de quando em longe, traio e faço poesia socialística, de intenção social, como fiz no Clã do jaboti. Só que no caso deste a traição era em proveito duma fixação prática nacional e agora já o meu brasileirismo transcende aos meus poemas ou estes áquele, e canto ou sofro apelos vagos porque sempre líricos, sociais, porventura comunistas (sem Rússia. Por tudo isso você compreende (e compreenderá melhor quando aí bater meu novo e talvez último livro de poesias, até o fim do ano), você compreende que estava afastadíssimo da poesia de você. E se não podia e não posso deixar de ler o seu livro sem toda a paixão da amizade, é certo que o julgo sem condescendência. Ora, o que me surpreendeu mais foi a integralidade segura, bem macha, com que seus poemas reunidos e em tipografia vencem os perigos que atravessavam. É inútil a gente datar de cinco anos atrás um poema como “Infância” pra que ele readquira o valor qualitativo. Podia ser datado de 1º de julho de 1930. Vence da mesma forma pela quantidade das anotações sensíveis e pela qualidade do todo. Não fazia mal ser de adesão a um assunto rebatido, porque era melhor que os outros sobre o assunto. Seu livro é de hoje, de ontem e de amanhã. Não tem valor episódico. Vale pela força intensíssima do lirismo de você, pela originalidade dele dentro do assunto mais batido. É a melhor vitória do lirismo brasileiro.
(FERRAZ, Eucanaã (org.). Alguma poesia: o livro em seu tempo. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2010, p. 252-4.)
A recepção favorável de Mário de Andrade frente à poesia de Drummond é revelada por uma série de marcas linguísticas que constroem o favoritismo do modernista. A opção em que está visível o grau superlativo relativo de superioridade é: