Texto 1
Quando a vida vira teatro (Prefácio)
Conheço o professor de Artes, Ricardo, há exatamente dez anos (enquanto escrevo este prefácio). Observando o trabalho dele com os estudantes comecei a defini-lo como um agitador silencioso, no melhor aspecto que a palavra agitador pode ter. De fala mansa e gestos contidos, ele é muito discreto e no dia a dia da correia dos afazeres da escola passa quase despercebido. Quando fica meio sumido da sala dos professores e dos espaços de convivência,já começo a desconfiar: deve estar preparando algum evento ou peça com o seu grupo de colaboradores que é imenso e engloba estudantes, pessoas da comunidade e outros servidores. Ou seja, tem um vulcão prestes a entrar em erupção.
Ele é criador de alguns eventos que, de tão maravilhosos, acabaram ultrapassando os muros da escola e se tronando uma referência na região. Posso citar o Interartes e o Auto de Natal, o primeiro é um verdadeiro festival que envolve inúmeras expressões artísticas, como dança, poesia, música, teatro, fotografia e muito mais. Atrai estudantes de várias escolas da região. O segundo é o Auto de Natal, uma celebração de natal que mistura elementos da tradição cristã com referências da vida e da cultura contemporânea e regional. Todos vidrados no palco quando, de repente, um coral de anjos é ouvido vindo das árvores da praça central da cidade, em seguida, uma procissão aparece no meio do público, tudo isso enquanto uma banda faz o acompanhamento musical ao vivo, contando inclusive com rap e diversos outros estilos musicais não comuns a um auto. Uma mistura entre o sagrado e o profano na medida certa.
Além de observador, tive o prazer de acompanhar dois trabalhos de perto, foram propostas interdisciplinares entre nossas áreas (artes e história), um deles acabou se transformando em algo maior. Era 2014 e o golpe de 64 fazia 50 anos e nos incomodava deixar aquilo passar sem ser devidamente lembrado, daí fizemos a parceria e o resultado foi incrível e fez muita gente se emocionar e aproximou, através da arte, os jovens e o público da experiência de saber o que é uma ditadura. A peça recebeu convites para ser encenada em outros lugares. Ricardo é um professor que faz arte engajada. Arte política. E que isso não se confunda com política partidária. Falo da arte política que está nas “Perguntas de um operário que Lê", de Brecht, por exemplo. É a arte que conscientiza não pela lição moral ou catarse, mas pela provocação.
Fonte: Araújo, Ricardo. Quando a vida vira teatro: teatro popular, teatro educação. Memoriando encontros. Maceió: Editora Viva 2020. Prefácio de Carlos Figueiras - com adaptações.
Com base no texto Quando a vida vira teatro e nos Fundamentos teóricos e metodológicos do Ensino da Arte, analise as informações a seguir:
I. Em "contando inclusive com rap e diversos outros estilos musicais não comuns a um auto. Uma mistura entre o sagrado e o profano na medida certa." Tem-se um exemplo de ousadia, dado que a escola é um local de pluralidade de pensamentos, correntes ideológicas e crenças, por isso, é preciso cautela ao professor de artes, quando desejar fazer arte-educação. Em uma sala de aula, por exemplo, cuja maioria professa uma crença religiosa que se distancia de estilos musicais da contemporaneidade em suas letras e estilos, é absolutamente desaconselhável a leitura ou apreciação artística de obras que valorizem outra forma de ver o mundo.
II. No trecho "Falo da arte política que está nas "Perguntas de um operário que Lê", de Brecht, por exemplo. É a arte que conscientiza não pela lição moral ou catarse, mas pela provocação.”, há um erro do prefaciador, dado que toda provocação numa produção de artes já é uma catarse. Segundo Lukács (1996), a Arte penetra na vida do receptor, subjuga seu modo habitual de contemplar o mundo e chama a atenção para uma sociedade cheia de conteúdos novos ou vistos de modos novos, por isso a provocação em si já constitui uma catarse.
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