TEXTO
A CAPITOA
Quando o Capitão da Guarda Nacional Afonso Dias Peixoto entregou a alma a Deus, assim de improviso, sem dar tempo para chamar o médico, nem o padre, Dona Leopoldina, a Capitoa, mandou pintar a fachada da casa com uma barra preta, simbolizando seu sentimento de viúva sem filhos – e ela mesma cumpriu um ano de luto fechado, saindo só para a igreja. Em seguida, usou vestido roxo por três meses e passou um mês de branco, depois do que considerou definitivamente pagas as honras devidas ao finado. E entrou na rotina nova da sua vida, administrando os bens, recebendo os aluguéis, frequentando a missa diariamente, não faltando à devoção da novena, ao tempo da festa da Padroeira.
Contraiu o hábito de ir toda manhã à Farmácia, para se fazer aplicar injeção: quando terminava a série para os nervos, entrava nos fortificantes, sem contar os remédios que levava para uso oral – um Elixir Depurador, um Vinho Reconstituinte, o Biotônico, a Emulsão. As más-línguas começaram a rosnar que a Capitoa estava de olho no prático da farmácia, um rapaz solteiro de riso cínico e olhos de víbora. Pura maldade, pois o moço tinha lá sua noiva oficial e tratava Dona Leopoldina com respeitosa consideração. Sim, que Dona Leopoldina ainda ficava bem meia hora de palestração na botica, mas estava só a fim de matar o tempo e tornar menos longa a manhã, que começava para ela às cinco horas.
Era uma mulher alta, branca, repolhuda, imponente, de cabelos pretos cortados “à la garçonne”, nariz de Cleópatra, olhos negros inquietos. Usava brincos de pingente, de ouro, que estavam sempre a balançar e não se separava da bolsa de prata, que conduzia com certo orgulho. E viva, simpática, conversadeira, curiosa, de palavra rápida e riso curto, costumava dizer que “viúva rica e bonita casada fica”. Tirando um pouco sobre a modéstia, acrescentava que não era bem seu caso – nem era rica, nem se julgava bonita. Mas tinha lá seu sal, isto tinha.
Começou a fazer pequenas viagens, a visitar parentes em cidades próximas e uma vez veio a Fortaleza, que ela vira em mocinha. Voltou de casamento apalavrado com um senhor de meia idade, caixeiro-viajante, que conhecera na pensão em que se hospedara. Por coincidência também se chamava Afonso. E a Capitoa, embandeirada, lhe louvava a polidez, o bem vestir, os cabelos grisalhos, a boa conversa em sotaque carioca, lembrava com ternura os passeios de automóvel, as tardes na sorveteria e um certo baile, que lhe deixara uma impressão imperecível.
Este segundo Afonso nem chegou a ir ao interior, a bem dizer não deu notícia, não se dignou nem responder à carta cheia de belos propósitos que ela lhe fizera, numa letra cheia e firme. Afonso II evaporou-se, mas deixou a Capitoa motivada para reincidir no matrimônio.
Pouco depois aportou na cidade um camelô, que se apresentava com uma cobra gorda e grande enrodilhada no pescoço, atraindo fregueses para a barraca de bugigangas, armada na Praça da Igreja. Caíram de simpatia mútua, que ainda mais aumentou da parte dela, quando o homem lhe deu de presente um corte de seda-palha, coisa muito fina, moda na época.
Por volta das quatro horas, lá ia ele para a casa da viúva, onde tinha direito a lanche de apetite e boa prosa, instalado numa rede de corda, muito a preceito. Terminada a festa da Santa, o camelô se foi, com promessa de voltar. Até hoje.
Claro que a Capitoa não desistiu, mas também não saiu à caça, dando mostras de indocilidade – ficou lá na sua janela, com varanda de ferro, onde à boca da noite pontificava para as mocinhas da vizinhança que gostavam de ouvi-la contar suas brilhaturas de juventude e repetir que “viúva rica e bonita casada fica”.
Uma tarde ela comunicou às suas trêfegas ouvintes que seu Belisário estava “se peneirando” para o seu lado. Estava mesmo. Era um homem longamente curtido na viuvez, com três filhas moças e dois rapazes, os quais rebentos, assim se deram conta das intenções paternas, entraram numa campanha acirrada de oposição, invocando como argumento fundamental que Dona Leopoldina já tinha cumprido sua tumultuada fase de loucura, em termos de patrasmente. O que aliás era verdade. E seu Belisário não ofereceu resistência à imposição dos filhotes.
Passou-se, passou-se, apareceu-lhe um outro viúvo, da cidade vizinha, homem velhote, que se apresentou com a intenção de lhe alugar uns quartos, que ela construíra nos fundos da casa, para fins comerciais. Que pretensão de aluguel foi esta, que acabou dando mesmo em casamento. Bem se vê que os quartos eram só um motivo para se aproximar da Capitoa, pois sua fama de “recursada” já corria pela redondeza.
Uma noite a cidade foi surpreendida com a Igreja iluminada, apesar de toda fechada. Num instante o povo suspeitou do casamento (que os nubentes pretendiam o mais discreto possível) e rapidamente começou a juntar gente à espera deles. Daí fizeram acompanhamento numeroso e festivo, com “Vivas” até a casa da Capitoa (que apesar de tudo continuava barrada de luto).
Infelizmente não posso terminar dizendo que viveram muitos anos e foram muito felizes. Poucos meses depois a infeliz Capitoa se finava. E não faltou quem suspeitasse de envenenamento por parte das enteadas.
Mílton Dias. A Capitoa; estórias e crônicas. Fortaleza: Edições UFC. 1982. p. 59-61.
De acordo com o texto, o feminino de capitão é capitoa. Forma o feminino da mesma maneira o substantivo