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Um não: muitos

A ideia de "espectro" ganhou corpo na comunidade científica a partir da década de 1990, graças aos trabalhos que a psiquiatra inglesa Lorna Wing desenvolveu. Wing foi a primeira a defender que não deveria existir uma régua única que reduzisse autismos diferentes a um diagnóstico fixo. Como os comportamentos apresentados em alguns casos podem não aparecer em outros, fica difícil colar a mesma etiqueta em todos os pacientes. A mudança de nomenclatura, apesar disso, é recente. Veio só em 2013, com a publicação da quinta edição do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, feito pela Associação Americana de Psiquiatria (DSM-5). Nela, os vários distúrbios da família do autismo passaram a ser reunidos sob o guarda-chuva do espectro autista.

O autismo "clássico", assim, passou a dividir espaço com distúrbios antes classificados separadamente, como as síndromes de Asperger e Rett. Essa definição mais moderna classifica os pacientes de acordo com o seu grau de funcionalidade. Em pontas diferentes desse degradê, existem pessoas que levam vidas plenamente funcionais e aquelas que, por causa de diferentes limitações, precisam de um acompanhamento mais próximo. Nomes como Asperger, inclusive, não são mais utilizados oficialmente. Mesmo assim, várias pessoas diagnosticadas com autismo leve ainda usam o termo para se identificar.

[...]

O que explica o fato de que, entre autistas, algumas habilidades cognitivas permanecem inibidas enquanto outras são maximizadas? Não se sabe ao certo. Uma das hipóteses é que o fenômeno seja um esforço de um lado do cérebro para compensar disfunções do outro lado. Felizmente, como a parte direita e a esquerda do órgão têm atribuições diferentes - uma é mais voltada para o raciocínio lógico, outra às artes plásticas e música, por exemplo -, quando uma sai de cena, a que sobra expressaria excessivamente os talentos de sua alçada.[...]

Uma memória fora de série só pode existir quando não se tem tanto apego emotivo por situações triviais. Em vez de o cérebro guardar um momento especifico como especial, acaba capturando qualquer instante com o maior número possível de detalhes, já que a falta de apego faz nada parecer especial o suficiente para ser priorizado.

Essa explicação dá margem a uma discussão evolutiva. Na lógica darwinista, o autismo seria uma pedra no sapato - que deveria, em algum momento da história da evolução humana, ter sumido do mapa. Isso, obviamente, não aconteceu. Uma vez que adaptações mais favoráveis à sobrevivência tendem a ser incorporadas - e mudanças que tragam impacto negativo ao sucesso reprodutivo são, aos poucos, descartadas pelo processo de seleção natural -, como o autismo permanece firme e forte?

De acordo com um estudo de 2017 publicado pela Universidade de Yale, algumas variantes genéticas geralmente associadas ao autismo também têm a ver com a inteligência. Por exemplo, uma memória privilegiada, marca registrada de algumas pessoas com TEA (Transtorno do Espectro Autista), costuma caminhar lado a lado com Ql's altos. E disso a seleção natural gosta. Um gene que é deletério em algumas pessoas pode se manifestar positivamente no intelecto de várias outras.

Esse é só um exemplo superficial de associação. Os geneticistas estão apenas começando a mapear com precisão as centenas - quiçá milhares - de variações no DNA que estão por trás do espectro autista. Entender como a ação cruzada de vários genes influencia o comportamento de seus possuidores é uma empreitada nos limites da biologia contemporânea. Uma empreitada atrasada: faz pouco tempo que autistas são objeto de ciência de qualidade. E não estamos falando só de genes: mesmo dados básicos são desconhecidos. Por isso, urge pesquisa e análise de dados e estudo aprofundado para montar esse quebra-cabeça.

ELER, Guilherme. Um não: muitos. Revista

Superinteressante, São Paulo, Ed. 410, dezembro de 2019

- com adaptações.

Degradê - Processo de dar intensidade luminosa ou diferentes tonalidades de cor, gradualmente menores, às variadas partes de um material.

QI - Quociente de Inteligência.

Deletério - Que é prejudicial à saúde, que possui um efeito destrutivo; danoso, nocivo.

Em que opção a análise dos termos destacados está correta?

 

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