Bondes elétricos (segunda parte)
De repente ouvi vozes estranhas, pareceu-me que eram os burros que conversavam, inclinei-me (ia no banco da frente); eram eles mesmos. Como eu conheço um pouco a língua dos Houyhnhnms, pelo que dela conta o famoso Gulliver, não me foi difícil apanhar o diálogo. Fiquei inclinado e escutei:
— Tens e não tens razão, respondia o da direita ao da esquerda.
O da esquerda:
— Desde que a tração elétrica se estenda a todos os bondes, estamos livres, parece claro.
— Claro parece; mas entre parecer e ser, a diferença é grande. Tu não conheces a história da nossa espécie, colega; ignoras a vida dos burros desde o começo do mundo. Tu nem refletes que, tendo o salvador dos homens nascido entre nós, honrando a nossa humildade com a sua, nem no dia de Natal escapamos da pancadaria cristã. Quem nos poupa no dia, vinga-se no dia seguinte.
— Que tem isso com a liberdade?
— Vejo, redarguiu melancolicamente o burro da direita, vejo que há muito de homem nessa cabeça.
— Como assim? Bradou o burro da esquerda estacando o passo.
O cocheiro, entre dois cochilos, juntou as rédeas e golpeou a parelha.
— Sentiste o golpe? Perguntou o animal da direita. Fica sabendo que, quando os bondes entraram nesta cidade, vieram com a regra de se não empregar chicote. Espanto universal dos cocheiros: onde é que se viu burro andar sem chicote? Todos os burros desse tempo entoaram cânticos de alegria e abençoaram a ideia dos trilhos, sobre os quais os carros deslizariam naturalmente. Não conheciam o homem.
(Machado de Assis. Crônicas escolhidas de Machado de Assis. São Paulo: Ática, 1994. Adaptado)
O verbo destacado em “Fica sabendo que, quando os bondes entraram nesta cidade, vieram com a regra de se não empregar chicote.” (10º parágrafo) está empregado no mesmo modo em que se encontra na frase